O ano é 2001. Um grupo de artistas se junta em Taboão da Serra com o objetivo de criar um grupo teatral que pudesse refletir sobre a arte na periferia. Quatro anos se passaram e em 2005 é fundado formalmente o Grupo Clariô de Teatro, composto por 8 mulheres e 4 homens.

O ano é 2008. O Grupo monta Hospital da Gente, indicado a cinco categorias no Prêmio Cooperativa Paulista de Teatro, do qual conquistaram três troféus. O espetáculo passou pelo Rio de Janeiro onde teve uma rápida temporada na Caixa Cultural, entre os dias 05 e 15 de fevereiro, mas foi o suficiente para deixar gravado na memória dos cariocas um espetáculo marcante e diferente dos que vêem sendo apresentados na cidade nos últimos meses.

Ao entrar no teatro somos convidados a ser o centro da apresentação, nos tornamos personagens principais ao apossarmos do palco. As cenas se desenrolam á nossa volta como um quadro onde o foco em cada momento muda de lugar, giramos 360º graus e vemos estas mulheres serem reveladas. Cada uma com sua história, sua dor, sua verdade.

O cenário de Alexandre Souza e Gilberto Franco Jr. nos leva para uma viagem pela periferia paulistana. O assentamento se ergue ao nosso redor, vamos conhecendo seus casebres, fazendo parte daquele dia-a-dia. Um dos pontos altos do espetáculo é quando passeamos pela favela: suas vielas, roupas, pessoas e por fim tomamos café com a velha Totonha. É de uma realidade incrível, que chega a doer ver uma senhora naquelas condições de vida.

O teatro começa a levar para o mundo um mundo que sabemos que existe, mas que fingimos não enxergar. Nos cegamos diante das dificuldades do outro, do sofrimento alheio, diante do caos de um capitalismo exagerado … e vamos vivendo…

Grupos como o Nós do Morro, no Rio de Janeiro, Clariô, em São Paulo e indo mais longe o Bando de Teatro Olodum, na Bahia, iniciaram um novo caminho no Brasil que é o de incluir os excluídos e apresentá-los para o mundo: suas vidas, seus gestos, suas palavras erradas, seus barracões; toda uma cultura periférica que não queremos aceitar, mas que está logo ali num morro qualquer atrás das nossas casas.

Somos convidados há uma nova reflexão no mundo atual: seria o teatro o caminho para a socialização da periferia? Ou estaria o teatro fazendo o trabalho dos nossos governantes?

Um texto forte. Uma sensação de inércia. Um grupo promissor. Um início de reflexão. Uma denúncia ao mundo. Um clarão em meio ao caos. Uma semente que foi plantada. Uma árvore que começa a dar frutos. Um teatro que nos leva… nos leva… nos leva….

“Veja ela ali acessa, dentro da fumaça. Divina.
Diz dona Preta: EU É QUE NÃO VOU MORRER DE CINZA”
(Marcelino Freire)

Mais informações sobre o trabalho desenvolvido pelo grupo no blog: www.espacoclario.blogspot.com