O Vôo da Rainha

Todo leitor que se preze sempre guarda um livro especial para ler em momento especial da vida. Eu não fugi a regra e quão grande foi minha surpresa quando, ao remexer em minha caixa de livros, me deparei com um presente (já aberto, mas ainda embrulhado) do ano de 2008. Terminei ali minha busca por uma boa história e me embrenhei de corpo e alma na vida cheia de soberba de Camargo. Dono do jornal argentino El diário; um homem sem escrúpulos e que acha que todos a sua volta devem bajulá-lo.

Este por sinal é um dos personagens mais bem construídos e dissecados pela imaginação do autor, que consegue transformar um pseudo-antagonista em um homem capaz de amar e sofrer ao mesmo tempo, o que nos prende do início ao fim da trama, e nos faz perguntar se estamos diante do vilão ou do mocinho. A sutileza com que Tomás desenvolve sua trama é tamanha que em alguns momentos também culpamos os outros personagens pela os erros que Camargo comete. Somos seus aliado e cúmplices e fica difícil separar, em alguns momentos, o que é certo do que é errado.

No desenrolar da trama vamos adentrando ainda mais essa existência problemática, onde nos é revelado um pai ausente, um filho abandonado, um amante passional e um homem fadado a desgraça. A história como define o próprio autor é uma “ficção/não-ficção, e apresenta uma a crônica de um crime e de uma pátria”. Martínez ganhou com esta obra ganhou o Prémio Alfaguara em 2002.

É de se esperar que Camargo morra no final e pague pelos seus erros (ou acertos), mas é nesse momento que Tomás Eloy Martínez nos brinda com a parte mais linda do seu texto e justifica que não existem pecados e sim um trajetória a ser vivida: “ a substância de todo romance, desde Chrétien de Troyes até Samuel Becket, é um anti-herói: um ser absurdo, estranho e desnorteado, que não pára de vagar de um lado para o outro, surdo e cego. (…) O romance é uma abelha rainha que voa para as alturas, às cegas, apoderando-se de tudo o que encontra em sua ascensão, sem piedade nem remorso, pois veio a este mundo somente para este vôo.”

É inevitável que questionemos alguns valores ao final do livro. Que nos vejamos tão imbuídos de soberba e insatisfação pessoal. Mas por outro lado somos convidados a nos encontrar de novo com nossos próprios defeitos, pois assim como acontece com Camargo, as vezes nos valemos de falsas mentira para não assumirmos nossos erros.

O Vôo da Rainha é o último volume da série Plenos Pecados que reuniu alguns dos escritores de prestígio para tratar dos vícios que atormentam que o homem moderno. Luiz Fernando Veríssimo escreveu sobre a gula; João Ubaldo Ribeiro, sobre a luxúria; José Roberto Torero, sobre a ira; Zuenir Ventura assinou o volume da inveja; João Gilberto Noll, sobre a preguiça e o chileno Ariel Dorfman escreveu sobre a avareza.

O livro ainda não foi guardado. Talvez este seja um daqueles que ficará na cabeceira da cama, pois todo bom leitor tem um livro preferido, um livro que não empresta e um livro que marca. E eu não pretendo fugir a esta regra…

Rangel Andrade

Ator e fundador da ESS N.CIA, cia de teatro.

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