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3 perguntas para Giulia Moon
Rober Pinheiro comment Comentários access_time 11 minutos

O Brasil tornou-se bastante prolífico em matéria de ficção vampírica, que o diga o best-seller André Vianco. Mas, além dos vampiros deste osasquense que já vendeu mais de 700 mil livros, outros autores também se destacaram entre os fãs dos imortais descendentes de Vlad Dracul, entre eles Martha Argel, Kizzy Ysatis, Adriano Siqueira e, claro, Giulia Moon.

Autora dos elogiados Kaori: Perfume de Vampira [Giz Editorial, 2009] e de sua sequência, Kaori 2: Coração de Vampira [Giz Editorial, 2011], além de contos e historietas publicados em diversas coletâneas, Moon retorna agora ao interessante universo da vampira oriental em Kaori e o Samurai Sem Braço, uma prequela do primeiro romance.

O livro, segundo a autora, faz uma ponte entre acontecimentos semelhantes ocorridos em tempos distintos [os terremotos de 2011 e de 1782, respectivamente], sem, no entanto, repetir a fórmula de narrativas alternadas utilizada no primeiro Kaori. A história começa na época atual, com Kaori tentando confortar seu amigo, Takezo, por conta das alarmantes notícias sobre o tsunami que devastou o Japão, sua terra natal. Este evento a faz relembrar de outra catástrofe semelhante ocorrida no passado, precisamente o terremoto de 1782, quando conheceu o samurai sem braço Migitê-no-Kitarô, um conhecido exterminador de monstros.

A partir destas lembranças, Kaori narra ao amigo as incríveis aventuras que viveu ao lado de Migite-no-Kitarô e de sua fiel companheira, Omitsu, uma mulher-raposa, enfrentando demônios e espectros do folclore japonês. Tendo como missão exterminar um terrível monstro devorador de almas, os três serão obrigados a encarar o mais arriscado de todos os confrontos: o desafio de enfrentar a si mesmo e às próprias fraquezas e arrependimentos, numa luta de vida ou morte.

Um dado interessante sobre esta publicação: por decisão da autora e da editora, 2% dos lucros obtidos com a primeira tiragem de Kaori e o Samurai Sem Braço serão doados a entidades assistenciais que auxiliam vítimas de catástrofes naturais, como as ocorridas no Japão em 2011. Sem dúvida, um belo gesto!

Para esmiuçar um pouco mais o universo de Kaori, fizemos 3 perguntas para Giulia Moon:

Outra Coisa: Dragões Tatuados, conto presente na coletânea Amor Vampiro, foi o début da vampira Kaori. E, a partir daí, a personagem tomou fôlego e alçou voos mais altos, resultando em extensos dois romances. Como se deu essa transição, da personagem e da escritora, das histórias curtas para as histórias longas?

Giulia Moon: Kaori já nasceu sensual, pois a proposta inicial do Amor Vampiro era o de ser uma coletânea de contos eróticos. E eu queria escrever algo que não ficasse limitado aos clichês das histórias de vampiras “gostosas”, mas que passasse ao leitor o que é a estranheza causada pelo amor de uma vampira: um amor fascinante, incompreensível, perigoso. Lembrei-me, então, de uma personagem que já aparecera em alguns contos: Kaori, uma gueixa vampira que matava seus clientes depois de fazer amor. Era ainda uma personagem simples, sem muita sutileza, mas no decorrer do conto Dragões Tatuados Kaori foi se tornando mais complexa e ganhou detalhes importantes como o dragão tatuado na coxa esquerda, símbolo de um sexo especial, onírico. Ao ser publicado, Amor Vampiro acabou virando uma coletânea de contos de amor, não necessariamente eróticos, mas Kaori permaneceu do jeito que a criei: uma “vampira de programa” linda, perigosa e imoral – de um jeito muito japonês. E, talvez por ser assim, acabou fazendo sucesso. Por isso, quando os editores da Giz Editorial perguntaram se eu não queria publicar um romance, não tive dúvidas: decidi escrever Kaori: Perfume de Vampira, a história pregressa de Kaori, desde a sua transformação em vampira no Japão feudal até os dias de hoje. Foi uma transição natural, mas o aumento de trabalho foi brutal. As páginas foram aumentando, aumentando… E a minha vida pessoal também foi mudando. Deixei de ser publicitária e virei escritora full time durante um ano. Escrever um romance de quase 400 páginas não é fácil. Reconstituir o cenário, os costumes, personagens do Japão feudal, então… Pesquisei muito, ressuscitei o meu lado japonês que andava hibernando enquanto batalhava na vida publicitária. Aprendi a ter paciência, sangue-frio e muita, muita força de vontade para escrever um livro que valesse a pena. Deixei de ser uma profissional bem remunerada e estabelecida para me tornar uma escritora desconhecida, que tinha que batalhar pelo reconhecimento, pelo respeito e pela pouca remuneração de cada dia. E os resultados estão por aí, nas mãos dos leitores. No ano passado, veio o segundo livro, Kaori 2: Coração de Vampira, e agora vou lançar Kaori e o Samurai Sem Braço na Bienal do Livro. Acho que continuo sendo uma desconhecida, uma profissional pouco remunerada, uma escritora que ainda tem muito a aprender. Mas estou bastante feliz comigo mesma e certa do valor do que faço.

OC: Kaori, Perfume de Vampira, seu primeiro livro, trouxe um novo fôlego para o defasado [e exaustivamente retrabalhado] mito do vampiro. A introdução dos kyuketsukis e de outros mitos japoneses trouxe um sabor todo diferente para a história. Como foi revisitar estas lendas orientais e o quão extensivo foi o trabalho de pesquisa de ambos os contextos históricos? Quais surpresas o leitor poderá esperar nesse novo trabalho?

GM: O kyuketsuki, na verdade, é um vampiro como qualquer outro. Tem as mesmas limitações e poderes dos vampiros clássicos, mas o que difere nele é a sua origem. Pois todo vampiro é semelhante ao humano que era, antes da transformação. E o kyuketsuki era um japonês. Os japoneses são especialistas em cultivar contrastes na sua cultura, no seu modo de ser. São frágeis, mas resistentes, afáveis, mas circunspectos, hospitaleiros, mas fechados, delicados, mas também brutais, e assim por diante. Embora eu tenha me distanciado durante muitos anos da cultura japonesa, eu tenho uma grande sintonia com esse modo de ser dos meus ancestrais. Por isso, os meus kyuketsukis são como todo japonês: discretos, esforçados, corajosos, cruéis, sensuais – e, principalmente, reagem de modo diferente dos ocidentais. Todos os livros de Kaori têm forte ligação tanto com a cultura japonesa tradicional dos samurais, das lendas antigas, quanto com a cultura pop de mangás, com os roqueiros andróginos de roupas excêntricas, com as bebidas malucas e as roupas idem. Por isso, as histórias de Kaori não apenas têm personagens inesperados no seu modo de ser, mas também evoluem de forma diferente. Claro que, para ambientar essas histórias, principalmente os trechos do passado, rolou muita pesquisa na internet, nos livros, conversas com amigos japoneses, pois eu não queria escrever algo que se tornasse mais um clichê, desta vez do japonês visto pelos olhos ocidentais. Eu queria me aproximar o mais possível do espírito japonês de verdade. E exacerbar esse aspecto, ao transformar esse japonês num vampiro – ou, no caso, numa vampira como Kaori.

Mas não é apenas desses traços japoneses que as histórias de Kaori são compostas. Kaori é uma mistura do que é [ser] japonês, com o que é [ser] brasileiro. O vampiro japonês Takezo, por exemplo, espanta-se com o caos das organizações brasileiras e a aparente falta de retidão moral de alguns personagens, que acabam, no final, conseguindo resolver as coisas ao seu modo. O brasileiro se espanta quando o japonês lhe diz que os seus patrícios sempre estão falando sério, mesmo com um sorriso nos lábios. Enfim, acho que o segredo de Kaori é essa mistura, mais do que a simples inserção de elementos japoneses!

No próximo livro, Kaori e o Samurai Sem Braço, os leitores podem esperar uma grande aventura. Uma fábula colorida, divertida, contada em tom de um teatro de saltimbancos em alguns trechos, noutros, narrada sob a luz de velas durante uma noite escura e sombria. Este terceiro livro é bem mais japonês do que o segundo, pois a maior parte dele se passa no Japão. Vão surgir criaturas da velha tradição do terror japonês. E, também, alguns que eu criei, inspirada neles. Enfim, é um livro para ser curtido pelos olhos, pela mente, pelo coração!

OC: Kaori e o Samurai Sem Braço, além de ser uma prequela da duologia já lançada, trará 18 ilustrações inéditas de sua autoria. Esse novo romance pode ser considerado um primeiro passo rumo à crossmedia ou é algo mais experimental? Na sua literatura, há espaço para o experimentalismo?

GM: Eu tenho feito experiências o tempo todo nos meus livros. Eu adoro a diversidade, mesmo que às vezes ela traga coisas meio estranhas, bizarras. Mas, geralmente, a experimentação tem dado belos frutos! No Kaori: Perfume de Vampira, eu experimentei contar ao mesmo tempo duas histórias separadas pelo tempo e espaço, em capítulos alternados, para se cruzarem no final. No Kaori 2: Coração de Vampira, eu queria escrever uma história cheia de gadgets, uma caixa de brinquedos, onde cada personagem tinha a sua vez para aparecer, brincar com o leitor e depois ir embora. Uma história emocionante como um filme em 3D bem realizado! E, em Kaori e o Samurai Sem Braço o tom de fábula e as ilustrações são uma espécie de experimento, pelo menos para mim. Eu sempre imagino meus personagens em carne e osso, nunca em desenhos. Por isso, foi como transformar algo real em algo de duas dimensões. As ilustrações que fiz não são a Kaori, o Takezo, o Migitê-no-Kitarô que vejo ao escrever. São representações pictóricas deles. Daí o tratamento de papel antigo sobre estampas japonesas dado nas páginas das ilustrações. Foi um recurso gráfico para sinalizar que aquilo não estava entranhado no texto, mas era uma espécie de comentário sobre ele. Não sei ainda o que farei nos próximos livros, nem se continuarei a ilustrá-los ou trabalhar com outros meios de expressão. Mas, com certeza, procurarei algo que instigue a minha mente com alguma novidade.

O lançamento oficial de Kaori e o Samurai Sem Braço acontecerá durante a Bienal de São Paulo, no dia 18 de agosto, a partir das 18 horas, no stand da Giz Editorial, Rua M-79, 22ª. Antes disso, no dia 12 de agosto, um domingo, Giulia Moon participará da mesa “Encontro: Vampiros e Lobisomens”, às 11 horas, no Espaço Jovem da Bienal do Livro, ao lado dos escritores Martha Argel [O Vampiro da Mata Atlântica], André Vianco [O Turno da Noite], Santiago Nazarian [O Prédio, o Tédio e o Menino Cego] e da escritora americana Sarah Blakley-Cartwright [A Garota da Capa Vermelha].

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Giulia Moon Kaori Vampiros