Como muitos dos contos que fazem parte desta seleta, o segundo volume da Coleção Imaginários rompeu barreiras e, literalmente, atravessou o Atlântico. Ao lado dos brasileiros André Carneiro, Alexandre Heredia e dos organizadores Eric Novello, Saint-Clair Stockler e Tibor Moricz, quatro escritores portugueses, João Barreiros, Jorge Candeias, Sasha Ramos e Luis Felipe Silva, apresentam suas histórias fantásticas, mostrando que também se produz ficção de gênero, e da boa, entre Trás-os-Montes e Lisboa.

O conto “Se acordar antes de morrer”, que abre este volume dois é, de longe, um dos mais interessantes da coletânea. Nele, João Barreiros retrata uma impressionante catástrofe global, o apocalipse visto sob a ótica de um robô-promotor. Despertado antes do tempo por um erro de programação em sua diretriz de controle, ele assume a forma e gesto de um bom velhinho, cuja missão é distribuir amostras grátis de produtos numa determinada área da cidade. Porém, logo que deixa a base, seus circuitos notam algo incomum: os clientes, sempre afoitos, mostram agora uma estranha atitude comportamental, dezenas de corpos frios agem de forma automática, repetindo gestos e a sempre mesma frase monocórdica: “gah”. A história ganha interesse à medida que o autor, ao longo do desenvolvimento do conto e através das reações do robô a determinadas situações, vai dimensionando a extensão da catástrofe que afetou não apenas humanos, mas animais, aves e até insetos, que se tornaram mais frios que o habitual. Dadas as suas funcionalidades, numa espécie de alusão à dicotomia homem/máquina, o robô não consegue “entender” o que acontece à sua volta, porque as crianças estão se comportando daquela maneira, por que os adultos não se interessam por seus produtos e por que continuam a ostentar aquela expressão apática, e nas poucas vezes em que encontra humanos quentes ele age unicamente da maneira que pode: entrega-lhes sua cota de amostras grátis — para os clientes com potencial de compra, é claro — e segue a sua programação de “promotor natalino”. Mas haverá noite feliz? Bem, pra descobrir, só lendo o conto!

“Às vezes eu os vejo”, de Saint-Clair Stockler, traz uma mistura interessante de elementos da ficção científica, da fantasia e do sobrenatural. Numa cidade do interior, praticamente abandonada pelos moradores mais jovens, uma mulher presencia estranhas aparições, seres que somente ela consegue enxergar. O conto brinca o tempo todo com esta situação e com a relação de crença entre a mãe, religiosa e discípula de Kardec, que acredita serem as aparições “espíritos de luz” que vieram traz mensagens de ajuda, e a descrença a filha, cética quanto a este provável interesse dos espíritos. A história, que ainda apresenta um interesse amoroso e um tutor que faz aflorar seu lado culto latente, segue nesse passo até bem próximo do fim, o que nos deixa sem saber exatamente do que se tratam as tais aparições. Até que um inesperado encontro/devaneio põe mais incerteza no relato da tal moça, e no final fica a dúvida se tudo realmente não passou de um sonho ou se foi a mais pura realidade.

Histórias sobre escolhidos e predestinados são uma constante na literatura fantástica, e não raro vemos surgir toda sorte de messias, dos pós-apocalípticos aos pós-cibernéticos. “Flor do Trovão”, de Jorge Candeias, se apossa dessa velha necessidade humana e a insere num contexto alienígena. Nascida entre o “clarão do raio e o estrondo do trovão”, Flor é tida como a salvadora de sua espécie desde que nasceu e, por tal sorte, adorada. Porém, receosos de interferir nos caminhos de uma antiga profecia, seu povo a cria na mais completa ignorância, fato que a faz sentir-se superior aos demais. Talvez esta seja a nota de dissonância desta história em relação às outras, algo que faz toda a diferença: desde sempre Flor se sabe diferente e em sua cabeça isso a torna superior. Quando a lenda sobre seu nascimento é-lhe finalmente revelada, Flor já se encontra predisposta a aceitá-la como verdade inquestionável. O conto, com uma pegada mais experimentalista, apresenta elementos que vão sendo introduzidos na história sem qualquer comentário ou explicação sobre, como as demais raças que habitam as montanhas deste mundo primitivo e os animais selvagens que ameaçam o povo de Flor do Trovão, deixando para o leitor sua conceituação. O final também surpreende, e, como numa espécie de lição de moral, Flor encontra o mesmo destino que os demais de sua espécie a quem julgava inferiores.

Em tempos de internet e comunicação instantânea em escala global, o autor Alexandre Heredia tece uma história perigosamente atual. Na trama, um programa computacional adquire inteligência e se espalha por toda a rede mundial, tornando-se totalmente onipresente entre bits e bytes. E, num mundo onde tudo é controlado por computador, desde a torradeira às ogivas nucleares, isso soa um bocadinho perigoso. Curiosamente, o programa, agraciado com o nome de Phoebe, se liga de maneira inesperada a seu criado (existe amor/lealdade em um programa de computador?). A história oscila do plano geral para o reduzido espaço de uma empresa particular, onde o futuro do mundo — e da cabeça do funcionário que criou o tal programa — vai ser decidido pelos caprichos desta nova e abrangente forma de vida. O conto soa ligeiramente ingênuo, focando-se mais na preocupação do funcionário em relação a seu futuro na companhia do que nas implicações globais que poderiam advir de uma criação dessa magnitude.

A fantasia urbana, como o próprio nome já evidencia, é um subgênero que utiliza elementos clássicos do fantástico e da ficção e os insere sem o menor pudor em um determinado contexto urbano, mesclando o mágico com o cotidiano e dando uma cara nova para a literatura de gênero. Infelizmente, no Brasil, temos poucos escritores que se arriscam neste terreno, mas ao menos um deles já começa a mostrar a que veio. Em “O Cheiro do Suor”, Eric Novello se apossa de um mito/personagem clássico e o apresenta sob uma nova roupagem, inserindo-o num ambiente urbano que lembra muito os filmes noir das décadas de 40 e 50. Um lobisomem, marginal e socialmente deslocado, como todo bom personagem dessa estética deve ser, se vê às voltas com um policial linha dura e um serviço bem ao estilo “viva e não deixe mais ninguém viver”. No conto, um dos melhores desse volume, se não o melhor (não me decidi entre este e o do Barreiros), o autor dedica uma atenção toda especial à construção textual em detrimento das ações desenfreadas que a gente comumente vê/espera de uma personagem assim. Mas não pense que o conto se torna menos interessante por isso. A narrativa intensa, suja, também lembra em muito a utilizada por Frank Miller em suas HQs (como os primeiros números de Sin City, pra ficarmos no mais recente) e, ao final, fica aquela impressão forte de que o conto muito bem poderia ser parte da malha narrativa que compõe, ao lado das histórias de Marvin, o submundo da “cidade do pecado”.

A “Rosa Negra”, de Sasha Ramos, reconta a história de amor e morte que ronda a vida de um jovem sonhador, tema já visitado por vários outros escritores de épocas tão distantes quanto diversas. Porém, aqui, o papel da mãe zelosa que faz de tudo para salvaguardar o filho ganha outro rosto, além de aspirações bem mais funestas. Sai a figura perversa e dominadora e entra a mãe fraca e suscetível, que mantém o controle por medo de um fantasma do passado. Os elementos fantásticos e científicos aparecem de modo bem dosado, mais como contribuição que como suporte à história, e a relação entre o jovem e a rosa negra que dá nome e desfecho ao conto é das mais interessantes. Do amor que constrói e inspira à morte que acaba com sonhos e anos de opressão, a velha máxima de que para se ganhar algo novo é necessário deixar para trás algo velho é revista aqui sob uma perspectiva nada animadora.

Num futuro próximo, onde a tecnologia tornou as habitações móveis, um homem parte em busca de sua casa, que se encontra presa em algum lugar de uma extensa área da antiga Europa comandada por um regime neonazista. Viajando de uma Manhattan que se tornou uma espécie de Hong Kong futurista a uma parte de Portugal vendida para pagar dívidas, a personagem de “A casa de um homem”, de Luiz Felipe Silva, acaba por terminar sua busca no castelo de um antigo conhecido da época em que trabalhava como agente secreto do governo. O conto, que o tempo todo parece tratar apenas do desejo de um homem em pegar de volta um bem precioso que lhe foi tomado, mostra no final ser bem mais do que isso, trazendo à tona o antigo desejo do homem de alcançar a imortalidade.

“Eu te Amo, Papai”, de Tibor Moricz, traz um relato de um futuro distópico em que as cidades se tornaram grandes núcleos alimentados por energia proveniente de crianças que ficam confinadas em pequenos casulos desde que nascem. Há séculos este sistema de obtenção de energia paranormal é mantido seguro, até que um pirralho escapa de um dos casulos e organiza uma rebelião. Seu propósito? Ora, encontrar o pai e ganhar dele aquele abraço apertado. O problema é que o tal pai da criança não é lá muito dado a essas coisas de paternalismos e, diante do filhote, se vê às voltas com uma difícil decisão, algo que acaba por se tornar um grande e irremediável inferno particular.

Fechando este segundo volume, André Carneiro apresenta mais um conto que resvala na sua temática preferida: a busca de um homem por seu amor idealizado. No conto “Uma Questão de Língua”, o protagonista é um homem obcecado pela vizinha culta e boazuda, que adora livros raros. No início, ele apenas a observa de longe, segue seus passos e os do pai, mas depois passa a fazer de tudo para conquistá-la, até ir contra os ensinamentos de seu mestre.

Com este número, a Imaginários fechou um ciclo e começou outro, desta vez sob a batuta de Erick Santos, editor da Draco, que já lançou mais três volumes da coleção, além de um filhote que se dedicará ao mundo das HQs.

Mais informações sobre os cinco volumes já lançados e sobre o projeto Imaginários HQ, no Site da Editora.

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