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Leandro Reis e os Filhos de Galagah
Rober Pinheiro comment Comentários access_time 10 minutos

A velha discussão sobre a legitimidade da literatura como entretenimento e, ao mesmo tempo, como arte voltou à baila recentemente, seja através da alardeada escolha dos 20 melhores jovens escritores brasileiros realizada pela britânica Granta ou pelo lançamento-resposta de sua contraparte assumidamente populista, a Geração Subzero.

Opiniões à parte sobre as virtudes e defeitos de uma e outra, o que vale mesmo é a discussão — infelizmente esvaziada por uma disputa que, a meu ver, deveria ser transformada em aliança — acerca do novo estado da arte e do quanto a literatura estabelecida pode [ainda] ser considerada superior àquela dedicada exclusivamente ao entretenimento.

Mercado e leitores há para ambas, e, cabe ressaltar, uma não esvazia o sentido da outra, do contrário, Daniel Galera não teria se unido a Rafael Coutinho e produzido o midiático Cachalote, talvez o exemplo mais emblemático da união de um [bastante] provável representante da academia e de um dos mais novos consagrados da nova arte, em outras palavras, do entretenimento.

Mas porque raios estou eu a falar [de novo] da academia? Simples, para deixar claro que o outro lado, aquele que não gasta noites de sono à procura da palavra perdida e da sonoridade perfeita, nem tem em Kafka, Nietzsche ou Saramago uma fonte de inspiração [ou, mais vale dizer, expiação?!], mas que se preocupa unicamente em contar uma [boa] história para seus leitores, também tem sua voz e vez neste bravio novo mundo das letras.

“Em 2004, enquanto narrava uma das minhas campanhas mais longas de RPG, decidi fazer uma lembrança para o melhor grupo com quem já joguei. Então, comecei a escrever a história que eles jogavam no formato de romance”.

Um romance surgido de uma campanha de RPG [também conhecido como jogo de imaginação]. Escrito pelas mãos de um jogador de RPG. E com a finalidade de virar uma homenagem / presente para um grupo de amigos. Três ingredientes nada ortodoxos que originaram uma trilogia de sucesso e deram vida aos Filhos de Galagah, ou, pelo menos, aos três primeiros capítulos do que viria a ser o Legado Gosldshine.

Tendo sua vivência como Mestre de Jogo [responsável por conduzir a história em uma partida de RPG e por criar situações conflitantes para as personagens dos demais jogadores] e pequenos experimentos literários anteriores [como os contos históricos ambientados nos cenários das campanhas rpgísticas e o vampírico Darkness, a escuridão te observa, livro que, num trocadilho mais do que infame, ainda não viu a luz do dia] como ponto de partida, Reis retomou a escrita dos Filhos de Galagah, agora sob um novo ponto de vista.
“Quando retornei aos três capítulos que havia escrito e decidi finalmente escrever a história dos Filhos de Galagah, eu coloquei como objetivo publicar [o livro]. Daí a coisa ficou séria…”.

Com o enredo previamente elaborado, surgiu a questão de como transformar uma história de RGP em um livro que não figurasse apenas como uma campanha encenada por uma trupe de amigos, mas que fosse algo que realmente fizesse sentido a mais pessoas e onde as ações das personagens se tornassem mais sensatas do que costumavam ser em um jogo de imaginação. E aqui, Reis marcou seu primeiro grande gol. Junto a Daniel de Alencar, o autor elaborou um autêntico plano de negócios, esmiuçando todos os detalhes pertinentes não apenas ao desenvolvimento da escrita e da obra em si, mas também e principalmente aos meios eficazes de produzi-la e fazê-la chegar ao seu destino final: as mãos de outros tantos jogadores / leitores ávidos por uma boa aventura. Um livro feito como um presente, mas pensado como um produto. Sacada mais acertada, impossível!

Em 2006, Reis concluiu o livro chamado A Primeira Runa, trabalho que fecharia a parte inicial do que seria originalmente uma quadrilogia. Após revisões, acertos, mais revisões, cortes e aqueles pitacos sempre bem-vindos de amigos, familiares e afins, Grinmelken finalmente começou a tomar forma. Para ajudar na divulgação do livro, o autor elaborou um site e lá detalhou seu universo mágico, apresentando, inclusive, os primeiros contos que mais tarde preencheriam as páginas de importantes coletâneas fantásticas nacionais. Personagens e lugares ganharam cor e forma, especialmente através do excelente traço do desenhista Licínio Souza, que deu vida a dragões, elfos, mortos-vivos e feiticeiras curvilíneas. Dois anos de procura e conversas foi o suficiente pra que o original fosse parar nas mãos de Rodrigo Coube, editora da Idea [que na época já publicava os livros da saga A Caverna de Cristais, de Helena Gomes, uma de suas influências confessas] que abraçou a proposta e aceitou publicá-lo sob o nome de Filhos de Galagah.
Nascia aí uma das trilogias mais bacanas da atual safra de alta fantasia nacional!

“Gosto deste primeiro livro, pois ele é uma clara demonstração de Luz”. — declara Reis. “Os heróis estão se formando, alguns saindo das sombras, outros [sendo] forjados na mais pura virtude”.

Reis conta que desde o princípio pensou em ter duas protagonistas para sua saga. A primeira, Galatea, é a inabalável princesa do reino grinmelkeniano de Galagah, a filha dileta dos justos e piedosos Goldshine. Discípulos e seguidores do grande deus-dragão Radrak, o Senhor da Luz, os soberanos de Galagah foram por milênios chamados de Campeões Sagrados, guerreiros que carregam nos ombros a missão de preservar a justiça e defender a vida. E é exatamente este peso que Galatea toma para si sem sequer pestanejar; mesmo ciente de que sua cabeça e a de todos os Goldshine pendem numa balança cujas pontas se encontram firmemente presas entre as garras imortais do grande Enelock, um mal que já ceifou a vida de muitos dos seus, ela não demonstra o mínimo temor, aceitando piedosamente a honraria que a tornará o Flagelo Sagrado de Radrak.

“Costumo compará-la ao Super-Homem, pois [Galatea] possui grande poder e um coração bondoso, ao ponto de ser incompreendida por muitos de nós”.
Galatea é a representação mais pura da demonstração de Luz a que Reis se referiu anteriormente. Sua conduta, além de inabalável, é de uma tenacidade exasperante. Ela é bondosa, tolerante, fiel, e mais uma centena de adjetivos que não caberia elencar aqui. Em suma, Galatea é a filhinha que todo pai gostaria de ter e, ainda por cima, após os eventos fatídicos que abrem o livro, ela acaba assumindo o legado do pai e tornando-se a Campeã Sagrada de Radrak. Precisa dizer mais?
Por outro lado, a segunda protagonista [ou seria antagonista?!], Iallanara Nindra, representa o oposto completo da jovem e aguerrida princesa de Galagah. Criada por uma praticante de magia negra, Nindra foi, durante toda a sua infância e adolescência, submetida às piores torturas e castigos, uma vida praticamente destruída que acabou por transformá-la em uma pessoa instável e egoísta. Por outro lado, o rigoroso treinamento nas artes das trevas a tornou uma das personagens mais poderosas do universo de Grinmelken. Iallanara, graças a todo esse material humano com que foi concebida, tornou-se mais profunda, mais sólida. E infinitamente mais palpável do que Galatea! Parafraseando Rousseau, ela foi concebida para sofrer e morrer e, uma vez familiarizada com esses dois únicos destinos, fez deles sua força.

Assim como tudo no universo criado por Reis, a relação de ambas as personagens é uma representação bem acabada do velho maniqueísmo bem versus mal que permeia nove entre dez histórias fantásticas [maniqueísmo que também está presente de forma bastante acentuada no arco geral da história]. E a relação entre a fortaleza representada pela jovem princesa e a instabilidade característica da bruxa vermelha cria uma aura toda especial, única dessa séria. Galatea, como legítima representante dos paladinos rpgísticos, carrega todas as virtudes cabíveis a uma personagem idealizada; é forte, corajosa, destemida e piedosa [no sentido mais amplo da palavra] ao passo que Iallanara é ressentida, violenta, fechada e depressiva, com um espelho que refletisse o inverso da outra. E é exatamente com essa dicotomia, esse extremo de personalidade, que Reis trabalha ao longo da história.

“Se eu fosse resumir o livro em uma palavra, eu diria: Início. [Filhos de Galagah] é o começo de uma jornada, tanto dos heróis, quanto do leitor que os acompanha”.

E essa jornada levará estes heróis aos mais distantes lugares desse mundo mágico; os fará atravessar florestas e montanhas, enfrentar criaturas que podem matar com um simples toque e outras que se escondem nas sombras, visitar cidades invertidas e reinos distantes em busca de três poderes, três pequenos serafins rúnicos que poderão decidir os destinos de todos os reinos.

E além da Princesa Guerreira de Galagah e da poderosa Bruxa Vermelha, há muitos outros heróis para acompanhar nessa jornada, seja o corajoso e destemido Ethan, guardião que antecedeu Galatea, ou o sábio Sephiros. Aliás, além dele, outro representante da raça élfica que seguirá viagem em busca da Primeira Runa é Gawin, um típico boa praça, galante e falador que sempre tem uma piada na ponta da língua. Também há dragões ancestrais, criaturas das sombras, deuses, vampiros, mortos-vivos, espectros e um grande senhor do mal [que vocês conhecerão mais lá pra frente], tudo temperado com um tipo de magia bem peculiar, que apenas aqueles iniciados nas boas práticas fantásticas conhecem.

“[N’Os Filhos de Galagah] eu apresento minha criação e os seres fantásticos que nela vivem. Do exército de mortos-vivos do Enelock, com seus vampiros e esqueletos, aos dragões de Radrak, é a partir daqui que o leitor começará a conhecer meu mundo”.

Uma viagem, sem dúvida, fantástica!

Agora que você conhece uma pouco mais da Luz de Grinmelken, esteja aqui amanhã para conhecer também as Sombras.

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Filhos de Galagah Grinmelken Leandro Reis