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3 perguntas para Cláudio Villa
Rober Pinheiro comment Comentários access_time 11 minutos

Crowdfunding!

Sabe o que é, não?

Explico:
[Mas antes, volte ali na linha de cima, leia-a outra vez e guarde bem o nome; algo me diz que você ainda ouvirá falar muito dele].

Enciclopedicamente falando…

O termo crowdfunding, ou financiamento coletivo / colaborativo, foi utilizado pela primeira vez em agosto de 2006 pelo empresário norte-americano Michael Sullivan [embora o referencial conceitual date de muito antes disso, de meados de 1997, quando fãs do grupo de rock britânico Marillion organizaram uma campanha via internet para angariar fundos para uma turnê da banda pelos EUA], e basicamente descreve uma ação cuja finalidade é a arrecadação de fundos para bancar iniciativas culturais, ou de cunho artístico, através da cooptação de diversas fontes, no mais das vezes, pessoas físicas interessadas na ação proposta. Resumindo: tem-se um projeto cultural que precisa de grana pra sair do plano das ideias, o autor cria um crowdfunding / plano colaborativo, especifica valores, cotas e retornos e o disponibiliza para o público.

Diferente da doação pura e simples, este sistema garante ao filantropo de ocasião a chance de obter algo em troca de sua boa ação, um “regalo” diretamente ligado ao projeto e proporcional ao valor ofertado, o que pode variar de uma menção honrosa a um exemplar exclusivo do item a ser produzido.

Este sistema de financiamento colaborativo chegou ao Brasil faz pouco, mas já conta com entusiastas do porte dos desenhistas Mike Deodato Jr. e Rafael Coutinho, que recorreram ao crowdfunding para financiar seus projetos pessoais.

E depois dos quadrinhistas, temos agora o nosso primeiro crowdfundingiano literário-fantástico. Na batalha para lançar seu segundo romance [o primeiro foi o livro Pelo Sangue e Pela Fé, de 2007], Claudio Villa abriu recentemente uma conta no site Catarse para angariar fundos para bancar as etapas de preparação de seu original, uma aventura bucaneira chamada O Vento Norte.

O livro, uma típica aventura corsária, com piratas da perna de pau [certo, a perna de pau é grifo meu], navios, batalhas, palavrões, rum e tudo o mais que forma parte desse cadinho flibusteiro, está em sua etapa de preparação textual. Daí, a necessidade do projeto.
Para conhecer mais sobre e saber o que ele anda aprontando com esse tal de crowdfunding, fizemos 3 perguntas para o marujo Villa [tá, foi ruim a tentativa de piada (deveria ser capitão?), mas o que vale é a intenção!].

Outra Coisa: O crowdfunding, apesar de recente por estas bandas, já foi adotado por nomes famosos, como os desenhistas Mike Deodato Jr. [The Cartoon Art Of Mike Deodato Jr.] e Rafael Coutinho [O Beijo Adolescente]. Você acredita que este sistema colaborativo de financiamento é uma saída interessante para o [quase] inexistente apoio dado às artes em geral e, em especial, àqueles projetos de cunho mais pessoal? O mercado brasileiro, e especificamente o literário, está aberto a este tipo de prática?

Cláudio Villa: Antes de responder, quero agradecer ao Rober e ao site Outra Coisa por abrir este espaço para falar sobre o projeto e esclarecer algumas dúvidas. Eu acredito que o crowdfunding surgiu como uma opção muito viável para o financiamento de projetos culturais, especialmente por que permite um contato direto entre o artista e seu público através de uma plataforma de relacionamento confiável. Pedir ajuda e patrocínio para a realização desse tipo de iniciativa não é uma novidade [eu mesmo fiz isso com meu primeiro livro], mas a questão é que no formato antigo o contato entre o colaborador e o artista era limitado. Não havia como acompanhar direito a evolução do projeto e nem ter nenhuma garantia de que, se o projeto não fosse viabilizado, aquele que colaborou teria seu investimento de volta. Hoje, com essa plataforma, as pessoas podem acompanhar minuto a minuto a evolução de sua ideia e saber exatamente o que você esta fazendo para concretizá-la. Colocar um projeto de crowdfunding no ar é, sobretudo, dar a cara à tapa, assumir um compromisso público e colocar sua imagem em cheque.
Acho que o público brasileiro ainda esta se acostumando com essa ideia de financiamento coletivo e acredito que muitos ainda se sentem inseguros sobre isso. Li uma matéria em um site de crowdfunding que diz que muitas pessoas só resolvem investir em um projeto quando ele já está financiado ou muito próximo disso. Chega a ser curioso, pois essa atitude acaba indo um pouco contra o principio do crowdfunding em si, que é apoiar projetos com pouca projeção, fazendo com que sejam bem sucedidos.

Acredito que meu projeto ajudará a dizer se o mercado literário está pronto para esse tipo de iniciativa. Até agora, vi pouquíssimos projetos de literatura serem feitos [de literatura fantástica, não vi nenhum até o momento], o que chega a ser curioso, pois teoricamente é o tipo de projeto mais fácil de criar uma premiação palpável que o colaborador poderá receber. Eu espero que, com essa iniciativa, eu possa realmente quebrar um paradigma e apresentar a autores iniciantes uma nova ferramenta que pode ser utilizada em seus projetos. Fazer um crowdfunding é também colocar à prova sua rede de contatos e o quanto você consegue influenciar as pessoas a comprar sua ideia. Isso pode servir como um excelente teste para determinar se a história que você pretende contar tem algum apelo junto ao público, se o tema interessa e se os elementos que você apresenta estão suficientemente maduros para serem consumidos. Nunca devemos nos esquecer de que um livro é um produto para ser consumido, e se ele não tiver apelo a seu público, não irá vender.

OC: O crowdfunding criado para seu segundo romance, O Vento Norte, destina-se às etapas preliminares de preparação do texto original [leitura crítica, copidesque e revisão]. Como foi feita a escolha / delimitação das fases deste processo e porque não foram consideradas todas as etapas, como a publicação? Além das doações, é possível colaborar de outra maneira? E já que de crowdfunding estamos falando, o que o colaborador pode esperar como retorno, além da satisfação em ter ajudado?

CV: Uma coisa que eu sempre falo quando converso com alguém sobre mercado editorial [especialmente quem está começando] é que publicar um livro é, na verdade, muito fácil. Qualquer pessoa pode pegar seu original, levar a uma gráfica de livros e imprimir 20, 50 cópias sem gastar uma fortuna. Muitos autores novos, deslumbrados com a possibilidade de serem publicados, acabam caindo na história de supostas “editoras” que vendem mundos e fundos, dizendo que adoraram aquela história, que irão publicar e distribuir e que só pedem uma pequena ajuda de custo para o processo. No final, o autor paga a edição inteira e acaba com um monte de livros em casa, sem ter como desová-los no mercado. Eu poderia pegar meu original e levar a uma dessas gráficas, mas eu tenho consciência [como qualquer autor responsável] de que não sou a melhor pessoa para julgar se aquela obra esta pronta para meu público e para o mercado editorial. Qualquer história precisa de revisões e cortes e por mais que o autor possa fazer isso por si só, é sempre melhor ter o suporte de um profissional que não tenha um apego emocional à história e saiba distinguir o que vale e o que não vale a pena ser publicado. Teoricamente, todos os livros de literatura precisam passar por essas etapas e acabou sendo um processo simples determinar essas fases.

É claro que adquirir uma das cotas do crowdfunding [não considero uma doação, pois a pessoa esta recebendo algo em troca] é a forma mais importante de se ajudar. O que tenho pedido a amigos e pessoas que possuem blogs e sites de cultura nerd é que mesmo após adquirirem sua cota, que continuem divulgando para seus contatos ao menos uma vez por semana. Um crowdfunding para dar certo precisa de volume e quanto mais pessoas ele atingir, maiores são as chances de sucesso.

Quanto ao retorno, o que eu posso garantir a meus leitores é que eles receberão um livro de qualidade, já que irei participar e supervisionar cada etapa do processo. Essa qualidade estará tanto na forma [tipo de papel, imagem da capa, impressão, texto bem revisado, com diagramação agradável e de fácil leitura] quanto no conteúdo. Para me certificar que não será apenas um livro bonito, antes de iniciar o crowdfunding, fiz uma extensa pesquisa de profissionais que realizam o trabalho de preparação de texto. Após conhecer o trabalho de diferentes pessoas, cheguei à Kyanja Lee. Eu a escolhi não só por ter sido recomendada por diferentes autores e até editores que já trabalharam com ela, mas também por trabalhar bastante com literatura fantástica e, portanto, conhecer bem o terreno em que está pisando. Mais do que simplesmente revisar o texto, nós iremos trabalhar em parceria, mudando e reescrevendo o que for preciso para garantir uma aventura e experiência de leitura inesquecível.

OC: O Vento Norte conta a história de uma jovem aguerrida e sonhadora que, a despeito de sua posição e obrigações sociais, se lança em uma aventura marítima em busca de suas aspirações. Esse plot também é, de certo modo, um reflexo da busca do Cláudio Villa escritor? A ideia desse crowdfunding seria uma primeira tentativa de vencer esse mar / mercado bravio?

CV: Sempre acreditei que todo personagem carrega junto de si um pouco de seu autor. Mesmo que muitas vezes eles se rebelem contra você, queiram tomar rumos que você não espera e simplesmente destruam toda a trama bem planejada que você tem para eles, ainda assim, eles são um reflexo de suas experiências. Acho que um dos motivos pelos quais eu esteja há três anos brigando para ver esse livro virar realidade é o quanto a Colleen [minha protagonista] acabou se tornando importante para mim. Sua origem remonta há quase dez anos, quando minha namorada [hoje esposa] precisava de uma personagem para um jogo de RPG Live. Ela, assim como eu, adorava piratas e juntos acabamos construindo essa personagem. Anos depois, comecei a jogar um MMORPG chamado Neverwinter Nights e não sei exatamente porque resolvi assumir essa personagem no jogo. Posso dizer que foram durante os dois anos seguintes que ela realmente nasceu, ganhou suas características mais marcantes, encontrou aqueles que seriam suas companheiras de aventura [na época, personagens de outros jogadores que viraram personagens do livro] e se tornou uma pessoa quase real para mim.

Vivenciar essa personagem foi uma experiência muito diferente daquela que tive com Jonathan Devilla [protagonista de meu primeiro romance, Pelo Sangue e Pela Fé]. Colleen é um espírito livre, uma pessoa que não aceita que outros estabeleçam padrões para seu comportamento, que busca e luta por aquilo que quer, mesmo que outras pessoas digam a ela que é impossível. Ao longo desses cinco anos, desde que saiu meu primeiro livro, vi amigos autores que começaram do zero, encontrarem editoras que apostaram em suas histórias e seus mundos e é isso, essencialmente, que busco com esse projeto.

Para conhecer o projeto de crowdfunding de O Vento Norte e colaborar com a iniciativa do Cláudio, além, claro, de descobrir o que você pode ganhar [porque ajudar é bom, mas ajudar e ainda levar algo em troca é melhor ainda], acesse http://catarse.me/pt/vento_norte.

E curta a fanpage no Facebook: https://www.facebook.com/ventonorte

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Claudio Villa O Vento Norte