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Enelock, o fim e um novo começo
Rober Pinheiro comment Comentários access_time 7 minutos

E eis que chegamos ao final dessa grande aventura. Depois de percorrer as terras abençoadas de Galagah na companhia de bravos, bruxas e princesas sagradas, de andar pelas ruas estreitas e invertidas de Lemurian, de enfrentar espíritos amaldiçoados e bárbaros sanguinários e pelejar contra mortos-vivos, senhores das sombras e dragões ancestrais, finalmente chegou a hora de… lutar, oras!

Se o primeiro livro foi chamado de luz e o segundo, de escuridão, o terceiro volume da saga épica criada por Leandro Reis pode ser definido — para usar uma só palavra — como luta! Mais do que a conclusão de um trabalho bem feito Enelock, o respeitável calhamaço que encerra a trilogia Legado Goldshine, é a síntese da luta derradeira pela qual todos esperam — a luta das personagens, a luta do bem versus mal, a luta pessoal do autor e a luta da própria literatura, infelizmente, ainda tem que se provar a cada dia. Lutas, lutas e mais lutas que, nas páginas do livro, se transformam em uma espécie de vertigem literária, uma aventura que percorre da primeira à última página do livro — ou de fio a pavio, como diriam os mais avançados na idade.

“Encerrar uma história assim é uma experiência única. É maravilhoso sair costurando todas as arestas deixadas nos livros anteriores e revelar alguns segredos que escondo de todos” — declara Reis. E continua: — “Mas, pelo mesmo motivo, está sendo muito difícil escrevê-la”.

O livro, cujo título evoca o mais temível inimigo dos habitantes de Grinmelken desde os tempos rashidianos [eu poderia discorrer sobre a era rashidiana e encher estas páginas — e seus olhos — com informações valiosas, mas não vou fazer isso, não! Então, se quiser saber — e, acredite amigo, vale muito a pena saber — quem foi Rashidi, terminando de ler essa matéria, corra lá para o site do autor] dá continuidade e fim à busca épica da princesa [e agora rainha] guerreira Galatea Goldshine pela terceira e última runa. O grande problema é que, para encontrá-la, a soberana de Galagah e seus companheiros terão que entrar no coração de Ars Níbul, um reino amaldiçoado, e enfrentar o maior mal que já marchou sobre Grinmelken: o Lorde Supremo dos Mortos.

Mas o que diabos é esse tal de Enelock?, você me pergunta. Segundo Reis, na história de seu mundo, o Manda-Chuva dos desafortunados que já passaram dessa para uma melhor [ou não, como você vai descobrir] surgiu há tempos na região sul do reino, mais precisamente nas planícies bárbaras, quando um portal dimensional foi aberto e quatro poderosos demônios escaparam dos Planos Inferiores. Durante o conflito com os bárbaros que lá viviam, ele acabou desaparecendo e os maus ventos — além dos rumores — o levaram para o norte, onde ele acabou erigindo, aos poucos, o reino dos mortos, Ars Níbul.

Enelock é o grande vilão da saga, aquele destinado a acaba com os dias e a glória dos Filhos de Galagah e, por conseguinte, com toda a vida do reino. No entanto, falar mais sobre ele seria estragar a história.

E por falar em história, Leandro conseguir neste terceiro livro dar mais substância às suas personagens, especialmente Galatea e Iallanara. Antes reclusa e solitária, a bruxa vermelha evoluiu de uma criatura que, mesmo poderosa, vivia à mercê de um senhor escuro para uma mulher forte e decidida, alguém capaz de fazer escolhas e de arcar com elas, além, claro, de ter se tornado uma profunda conhecedora de magia. É interessante observar sua evolução, relembrar cada momento de agonia, as dúvidas sobre o certo e errado e finalmente, acompanhar sua epifania tardia.

Já Galatea ganhou outro tom nesta aventura final, mais firme, decidido. Da heroína ingênua e pia do primeiro livro restou pouco — e vale ressaltar que boa parte dessa transformação foi ocorrendo ao longo das páginas d’O Senhor das Sombras — e agora, às portas de Ars Níbul, o que temos é uma mulher forte e confiante, não aquela confiança indulgente, mas uma confiança em si e em sua própria capacidade, conseguidas, ambas, à custa das experiências pelas quais teve de passar ao longo de sua jornada autoimposta. Mais do que representar a vontade de um deus-dragão sagrado, ela agora representa a inspiração de seu povo, a força que congrega todos os guerreiros de seu tempo — seus companheiros de aventuras e aqueles que se juntam para combater os exércitos do senhor dos mortos, a chamada União das Espadas — e os guia na luta contra o também maior inimigo de seu tempo.

Uma guerreira — e rainha — de fato!

Com Enelock, Leandro elevou suas personagens a outro patamar e, para confrontá-las, criou um vilão nada menos que à altura.
Lançado em 2011, o livro veio com todo o kit característico dos lançamentos anteriores do autor: capa emblemática e belamente ilustrada, desenhos incríveis de Licínio Souza e um dos melhores — se não o melhor — booktrailers de toda a saga, novamente a cargo de Leonardo Reis.

Mas como eu disse no título desta matéria, Enelock finda uma era e dá início a outra.

“A jornada realizada em Legado Goldshine, apesar de abranger uma boa parte do mapa de Grinmelken, ainda é uma fração pequena das histórias que meu mundo pode gerar”. — confidencia Reis.

Prova disso é que este ano, durante a 22ª Bienal do Livro de São Paulo, o autor lançou seu mais novo projeto grinmelkeniano, o livro-solo Garras de Grifo, um belo de um tijolinho que narra a história de Alexia Garras de Grifo, uma mulher bárbara criada em uma tribo que está prestes a se desfazer. A obra, também com chancela da Editora Idea, irá explorar mais a fundo a cultura e a história bárbara das planícies do sul, que é superficialmente apresentada n’O Senhor das Sombras.

Entre projetos, rabiscos e ideias, Reis conta que ainda pretende trabalhar outros referenciais de seu mundo fantástico, como o surgimento de Lemurian, a Cidadela Invertida, e uma obra cujo título provisório é Réquiem pra Leyar, do qual o conto Dia de Caçada forma um prólogo.
“Tenho outros projetos mais ambiciosos em mente, sendo um deles para Iallanara, outro para o Ethan, da época em que ele e o dragão Nogard se tornaram os heróis lendários que são hoje, e mais alguns que seguirão uma linha de terror medieval, passados nos Vales dos Horrores, local que serve de cenário para dois dos meus contos mais conhecidos: A Dama Noturna e Esperança Corrompida”.

E arremata:

“Grinmelken é minha paixão e é neste mundo que mais me divirto e, assim sendo, é nele onde mais posso divertir meus leitores”.
E essa é uma diversão, sem erro de causa, garantidíssima!

Se você quiser — e eu sei que você vai — conhecer mais sobre o trabalho do Leandro, basta acessar seu site: http://grinmelken.com.br/ e se esbaldar com as muitas informações, contos e histórias que formam esse incrível universo.

Ah, e volte aqui depois para conferir a entrevista especial que fizemos com o Leandro Reis!

 

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