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Videodrome - A Síndrome do Vídeo
Bruno Accioly comment Comentários access_time 6 minutos

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Essa é uma resenha diferente, que vai te fazer sentir zappeando a sua TV a Cabo enquanto escuta trechos de filmes, séries e reportagens…

Houve tempo em que programação da TV sequer era divulgada pelas emissoras de Televisão e não havia qualquer compromisso com o público em manter a promessa de passar este ou aquele filme. A Televisão já foi um monolito encravado no meio da sala de jantar e cercado por criaturas que tinham medo de mudar o canal por que só haviam cinco ou seis e apenas um ou dois tinham um mínimo de qualidade.

Nessa época era preciso ficar a três metros da TV porque “os raios catódicos podiam te deixar estéril por envenenamento radioativo” – e se você acreditava nisso por que tinha uma TV dentro de casa?!

Debrucei-me sobre o primeiro “vídeo-k7” quase dez anos antes dele chegar no Brasil e, quando chegou, deu lugar a uma explosão de vídeo-locadoras pipocando a cada dez metros de calçada em tudo que é canto.

Ao advento do VHS seguiu-se, mais tarde a TV a Cabo, tarde demais em relação ao resto do mundo, e trazendo uma enxurrada de canais e – graças à nossa senhora da engenharia – o controle remoto, porque seria uma ginástica insuportável levantar cento e tantas vezes para fugir de um canal para o outro para não assistir o que o anterior nos mostrava.

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Não tardaria tanto para que uma torrente de filmes escorresse pela telinha de outro eletrodoméstico tido como inútil pela maior parte das gentes míopes da época… filmes aos quais o ávido consumidor de tecnologia que “sacava tudo de informática” teriam acesso sem precisar assistir nenhuma mensagem do patrocinador.

A institucionalização do “roubo” do produto cultural filme se alastrou de forma tão violenta que o crime organizado (dizem) quis um pedaço e começou a gravar “CD-RUM” de filminho a torto e a direito nas esquinas, enquanto as produtoras vendiam DVDs originais sem encarte, extras ou qualquer paparico por R$ 50,00.

A história da TV tem menos a ver com a tela que com o filme e a série de TV, produtos culturais produzidos em escala industrial fora do país e importado para ser vendido a preço de queijo gorgonzola para o consumidor Brasileiro.

A realidade é muito mais estranha e a revolução, televisionada ou não, vai ser, foi ou sempre será o triunfo da ilusão sobre o bom senso.

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“Videodrome – A Síndrome do Vídeo” é um filme deliciosamente delirante, surrealista, alegórico e subversivo que descortina, ironicamente através de uma tela, uma parábola mordaz e quase insuportável acerca de televisão, tecnologia, realidade virtual e da relação do ser humano com seus vícios.

Em um futuro mais que presente, James Woods é gente da televisão procurando o próximo grande formato para o programa de TV do amanhã em uma sociedade que não pode se desligada dos aparelhos sem que alguma suposta convulsão social venha a ocorrer ou, o que é mais provável, as emissoras percam a oportunidade de vender mais espaço publicitário.

Muitos escritores de sinopse pereceram ao tentar descrever este filme, sobretudo os que tentaram assití-lo, porque “Videodrome” se desenrola em uma arena maior que as polegadas disponíveis numa tela de TV.

A televisão, em “Videodrome”, se transforma de instrumento de mudança social em vetor tumoral, um veículo para o formato definitivo, instrumento capaz de provocar uma explosão de sensações e estímulos em sua vítima através do sadomasoquismo, do sexo, da hiper-violência, da degradação e de uma fusão entre a carne e o vídeo.

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David Cronenberg, escritor, diretor e doente genial de plantão perfaz o caminho da narrativa, em “Videodrome”, de forma visualmente tão prolixa e “zappeante” quanto esta resenha, sem facilitar para o “leitor” e com a má intenção de apelar para seus instintos mais primitivos com o objetivo que ele não desvie os olhos da tela.

O maior inimigo de qualquer diretor e roteirista, hoje, é a síndrome da falta de atenção do espectador – da qual este último se desculpa dizendo que isso ou aquilo é “muito chato” – cada vez mais acentuada pelo mimo do controle remoto e pela porção deseducativa da cultura internética. E é aí que complica para “Videodrome”… quase todo filme excepcionalmente bom é um pouco chato mas, se o espectador conseguir lembrar o que seus avós diziam ele vai ter muito a ganhar: tudo que vale a pena é um pouco mais difícil do que de costume.

“Videodrome” aparece muito raramente na TV aberta, de tempos em tempos na TV a Cabo e o tempo todo em torrentes bucaneiras nas correntes mais subversivas “do” Internet e é um filme que vale a pena se o espectador é dado a leituras complexas de problemas muito atuais.

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Personagem importante para o entendimento da trama, Brian O’Blivion é baseado em Marshall McLuhan, um dos mais importantes estudiosos da comunicação, sobre quem vale pesquisar e que foi professor de David Cronenberg.

O filme, que conta com James Woods, Deby Harry (Blondie), é uma fábula difícil que faz referências confusas a “Mágico de Oz”, “Alice no País das Maravilhas” e outras fábulas de subtexto distópico que são encarados pelos incautos como estórias infantis, revisitando instâncias literárias familiares como “1984” e “Admirável Mundo Novo”.

É, enfim, um filme que você deve assistir, sobretudo se apreciou o formato desta resenha, que fez de tudo para se livrar do leitor mais superficial ao longo de seu desenrolar narrativo.

Se ainda está em dúvidas não acredite em mim. Nas palavras de Andy Warhol “Videodrome” é o “Laranja Mecânica dos anos 80”.

“Vida longa à nova-Carne!”

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Deby Harris distopia James Woods Videodrome