The Beast Must Die!Filmes de lobisomem são sempre interessantes, de uma maneira ou de outra. Sejam os lobisomens quase humanos de Werewolf of London e The Wolfman, os híbridos monstruosos de Grito de Horror e Um Lobisomem Americano em Londres, os históricos como em Romasanta, ou aqueles que deixam de lado o meio termo e são simplesmente lobos, como em Wolfen.

A dualidade da figura do lobisomem é uma ideia perfeita para histórias de terror que analisam o lado sombrio dos seres humanos, que mostram do que as pessoas são capazes quando confrontadas com seu lado animalesco.

“Lupus est homo homini, non homo, quom qualis sit non novit”

São questões profundas que quando exibidas da maneira correta, rendem histórias incríveis e clássicas.

Eu não vou falar de nenhuma dessas questões hoje.

O filme sobre o qual comentarei hoje é A Fera Deve Morrer (The Beast Must Die), de 1974, baseado no conto “There Shall Be No Darkness”, de James Blish.

“Esta é uma história de detetive-
Em que você é o detetive”

Essa frase aparece logo no início do filme.

E logo após, isso aparece:

The question is not "Who is the murderer?", but "Who is the werewolf?"

A questão não é “Quem é o assassino?” – 
Mas “Quem é o lobisomem?”

Antes de falar sobre o filme em si, eu tenho de comentar sobre o estúdio que produziu A Fera Deve Morrer, a “Amicus Productions”. A Amicus foi um estúdio rival da Hammer, fazendo o mesmo tipo de filmes de terror, na mesma época, e muitas vezes com os mesmos atores, como Christopher Lee, Vincent Price e Peter Cushing. Muitos dos filmes da Amicus eram antologias, eles fizeram a adaptação original de Contos da Cripta, Vault of Horror, todos adaptações dos velhos quadrinhos de terror da EC Comics. Eles também fizeram alguns filmes que não eram antologias, e eram filmes interessantes.

As vezes não eram bons, mas ainda assim, eram interessantes.

The Vault of Horror

Como fã inveterado de Doctor Who, eu preciso mencionar que os filmes Dr. Who and the Daleks, e Daleks – Invasion of Earth 2150 A.D., estrelando Peter Cushing, foram produzidos pela Amicus.

Dr. Who

…na verdade isso não serve muito para enaltecer o estúdio, visto que os dois filmes foram… er… ligeiramente… hmm… eles são terríveis. Mas vamos deixar isso para lá.

A Amicus tentava seguir a mesma estética dos clássicos da Hammer Films, sua grande rival, mas sem fazer muitas obras de época, pois obras de época eram mais caras de se produzir. Então temos aqui um filme que é uma versão alternativa da estética Hammer de horror, mas que se passa na década de 70.

Vamos ao plot do filme.

Um milionário excêntrico chamado Tom Newcliffe (Calvin Lockhart, você pode se lembrar como o doidão do vodu de Predador 2), um caçador inveterado, convida um grupo de pessoas para sua remota mansão no interior da Inglaterra. Newcliffe é uma mistura de General Zaroff, de “The Most Dangerous Game” com o Shaft.

Não acredita?

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A jaqueta de safari de couro que Newcliffe usa, sem camisa por baixo, está aqui para provar a veracidade das minhas palavras.

E se isso não ajudar, veja o filme. A trilha sonora de Doug Gamley, apesar de ter os momentos de tensão que qualquer filme de lobisomem pede, é definitivamente ‘funky’.

Mas voltando ao plot.

Tom Newcliffe é um homem viajado. Ele já caçou todo tipo de animal selvagem, “se existe, Newcliffe já caçou” é dito durante o filme. É aqui que entra o paralelo com Zaroff. Já que ele já caçou todo o tipo de presa, obviamente só resta uma opção.

Caçar a presa mais perigosa de todas.

Não, não essa. Muito provavelmente ele já caçou pessoas.

A presa mais perigosa de todas que ele pretende caçar e abater, é UM LOBISOMEM.

Nada mais corriqueiro.

Cada uma das pessoas que Newcliffe chamou para a sua mansão, tem mistérios que os rondam, mortes não explicadas, gostos peculiares, coisas que os tornam suspeitos de serem um lobisomem.
 Um deles é um lobisomem, Newcliffe está certo disso, e quando o lobisomem se revelar, se tornará um novo troféu empalhado na sala da mansão.

O filme é basicamente um “locked room mystery” ao estilo Agatha Christie, mas ao invés de tentar descobrir quem é o assassino, você está tentando descobrir quem é o lobisomem.

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E isso é exatamente o que o filme explica, por escrito, logo que começa.

Mas o estilo “descubra o mistério” não termina aí. O filme tem o que chamam de “Werewolf Break”. Não, sério, é o nome que usam no filme.
 Dez minutos antes do fim, a tela congela, e você tem um relógio marcando trinta segundos, e vem a pergunta “Quem você acha que é o lobisomem? É Jan, o pianista? É Paul Foote, o artista? É Caroline, a esposa de Tom?”.

Parece absurdo, mas é dolorosamente real.

Veja por você mesmo:

As opções são dadas, o relógio termina os trinta segundos, e o filme volta a passar.

É um jogo de cidade dorme, mas o policial atira no bandido… ahem… lobisomem, com balas de prata.

E se isso ainda não te convenceu a ver este filme, eu tenho de mencionar que o Peter Cushing faz parte do elenco. E a presença de Peter Cushing adiciona mais 50% de respeitabilidade a qualquer filme.

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Cushing interpreta um dos convidados de Newcliffe, o professor Lundgren, um arqueólogo escandinavo que também é um expert em lobisomens (ora, vejam só, que conveniente). O personagem está ali para dar um ar de realismo científico ao lobisomem do filme. Lundgren explica que um lobisomem se transforma através de uma reação das glândulas linfáticas, que inundam o corpo de hormônios que causam uma doença peculiar. Uma doença que faz com que a pessoa tenha um crescimento anormal de pelos no corpo inteiro, fique com os olhos vermelhos e injetados, e desenvolva um apetite nefário por carne humana. Ele também explica que o vírus reage com partículas de prata, que ao serem absorvidas pela pele, se combinam aos fluídos linfáticos, criando um veneno mortal, mas isso só acontece quando pólen de Acônito se encontra no ar. É um discurso imenso de fatos pseudocientíficos tentando fazer com que o lobisomem soe plausível, que poderia até ter dado certo se o lobisomem do filme não fosse, literalmente, apenas um pastor alemão de peruca.

Você não leu errado.

Não existe uma pessoa fantasiada, maquiagens elaboradas, nada disso. O lobisomem é um pastor alemão, com um pouco mais de cabelo colado na cabeça. E quando ele ataca as pessoas, as vezes parece que ele está apenas abraçando elas.

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Podiam pelo menos ter escolhido o cachorro que não ficava com a língua para fora o tempo todo.

Então, lembre-se, se você pegar essa doença de lobisomem, você vai virar um cachorro. Mas pelo menos é um pastor alemão. Poderia ser pior. Um pastor alemão tem a capacidade de intimidar. Imagina se a escolha de cachorro que você vira com a doença for aleatória?

A Fera Deve Morrer II – O Ataque do Yorkshire Terrier.

Os outros personagens são Arthur Bennington (Charles Gray) um diplomata que abdicou de seu cargo após dois membros de sua equipe desaparecerem misteriosamente, Jan (Michael Gambon. Isso mesmo, o Dumbledore), um pianista internacional, banido em algumas capitais da Europa devido a sua ligação com estranhos assassinatos onde as vítimas apareceram com a garganta destroçada, sua esposa Davina (Ciaran Madden) que era sua aluna, e que tem um histórico igualmente estranho de estar em festas onde pessoas são mortas, e Paul Foote (Tom Chadbon), um artista recém-saído da cadeia, e que não é estranho ao consumo de carne humana, ou discreto quanto a prática.

a-fere-deve-morrer-elenco

09Além dos convidados temos a esposa de Newcliffe, Caroline (Marlene Clark), e seu chefe de segurança Pavel (Anton Driffting), que definitivamente não acreditam nessa história de lobisomem.

Mas Tom acredita.

Tom Newcliffe acredita tanto nisso que ergueu uma cerca eletrificada ao redor de sua mansão, com atiradores de elite espalhados por pontos estratégicos, para impedir seus convidados de escapar. Ele colocou câmeras em cada metro quadrado da propriedade, cultivou acônito em sua estufa, e carregou seus rifles de caça com balas feitas de prata sólida.

pitoresco2O filme é pitoresco. A fotografia não é ruim, algumas escolhas são realmente inspiradas e artísticas (procure pela cena com o espelho despedaçado), mas elas nem sempre funcionam, e quando são usadas demais, perdem o impacto. A trilha, como já mencionei, não decide se quer ser a trilha de um filme blaxpoitation ou de terror, mas isso não é necessariamente um ponto negativo.

Outro detalhe que vale a pena ressaltar, é que o filme não usa muitos sustos ou cenas sangrentas. Apesar de existirem, sim, as cenas sangrentas, elas são tão raras que se tornam bem efetivas quando acontecem. Sentir medo não é objetivo desse filme, e sim criar uma aura de mistério e suspeita.

Só é difícil levar a sério o clima quando, como já disse, no momento de maior tensão o filme para e pergunta se você já adivinhou quem é o culpado.

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Aparentemente, Milton Subotsky, um dos donos da Amicus Productions, odiou tanto o filme, que decidiu colocar o “Werewolf Break”. Não se sabe qual era exatamente a intenção dele ao colocar isso no filme, e sabemos que o diretor, Paul Annet, não gostou, mesmo assim, esse elemento ridiculamente brega e deslocado dá uma certa originalidade ao filme. Um elemento de pastiche, sem que o filme seja um. Pelo menos intencionalmente (o único outro filme que usa um artifício mais ou menos parecido, que eu me lembre, é Os Sete Suspeitos).

A Fera Deve Morrer é um filme falho. Não é de maneira nenhuma uma obra-prima, mas é relativamente bem feito, e extremamente divertido de se assistir quando você já entrou no espirito da coisa e decide apenas aproveitar. Talvez o filme não seja uma pérola, mas certamente é um pedaço de bijuteria brilhante entre as produções do estúdio.