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Phantástica Brasiliana
Rober Pinheiro comment Comentários access_time 11 minutos

Não é mais novidade pra ninguém que a literatura de gênero no Brasil cresceu a olhos vistos nos últimos anos. Livros de fantasia, ficção científica e horror pululam das editoras, criando um mercado que, embora ainda pequeno e de alcance restrito, mostra um grande potencial de crescimento. Escritores novatos e veteranos se aventuram por gêneros e subgêneros até então pouco explorados, novas editoras surgem com a proposta de abrir mais uma porta para receber estas ideias e livrarias, ainda que timidamente, começam a disponibilizar espaços para a realização de palestras, bate-papos e eventos fantásticos, além da boa e velha ajuda dos blogs, sites e redes sociais dedicados a espalhar a literatura fantástica por aí. Também não podemos esquecer o apoio, mais que bem vindo, que a literatura estrangeira, com seus milhões de exemplares vendidos, muitos deles graças aos blockbusters que arrebatam centenas de milhares de jovens afoitos, deu para essa retomada.

Óbvio que ainda temos muito chão pra percorrer até chegarmos ao Olimpo literário; falta as grandes editoras abrirem os olhos e finalmente enxergarem o potencial do escritor de fantasia nacional, passando a investir também nesse mercado, falta a mídia nacional dar mais atenção ao que é produzido aqui, falta vencermos a barreira do fandom e chegarmos ao grande público, falta… bom, falta muita coisa, mas essa é uma discussão que fica pra outra ocasião.

Das boas surpresas reservadas para 2010, tivemos os lançamentos e relançamentos de clássicos da ficção científica, via editoras Aleph e Devir, que deram a oportunidade aos leitores com idades abaixo dos 3.0 de conhecer — ou, em alguns casos, de revisitar — obras importantes como Uma Princesa de Marte, de Edgar Rice Burroughs, O Fim da Infância, de Arthur C. Clarke, a Trilogia da Fundação, de Isaac Asimov, Os Três Estigmas de Palmer Eldritch, de Philip K. Dick e Xenocídio, de Orson Scott Card, só pra citar alguns. Também tivemos o lançamento do segundo livro do escritor Leandro Reis, O Senhor das Sombras, pela editora Idea — que, inclusive, já anunciou o terceiro livro, que fecha a saga dos Goldshine, para breve — e o relançamento do vampírico Relações de Sangue, da Martha Argel, pela Giz Editorial.

Outra iniciativa interessante é a entrada de grandes editoras no mercado de fantasia, como a Leya — que publicou recentemente o segundo livro da trilogia Dragões de Éter, do escritor Raphael Draccon, e se prepara para lançar no segundo semestre o livro Um Jogo de Tronos, o primeiro da megassérie Uma Canção de Gelo e Fogo [A Song of Ice and Fire, no original], do americano G.R.R. Martin — e a Galera Record, braço editorial dedicado aos jovens que programou uma série de lançamentos na área de fantasia, entre eles alguns títulos nacionais e os dois primeiros livros da série Téméraire, de Naomi Novik. Ainda falta muito tempero nacional aí, mas graças ao trabalho de formiguinha de muita gente boa que leva a sério nossa ficção de gênero, dá pra ver que, de ontem pra hoje, já caminhamos um bom par de léguas.

Outra grata surpresa, essa surgida ano passado, mas que ganhou força neste primeiro semestre, foi a chegada da Editora Draco ao mercado. Capitaneada por Erick Santos, a editora apresentou no início do ano um line up de dar inveja a muita gente, e até agora tem se mostrado uma das editoras mais atuantes de 2010, com vários títulos já lançados e muitos outros a caminho. Entre as novidades que chegaram às prateleiras, destacam-se os livros Selva Brasil, do veterano Roberto de Sousa Causo, Guerra Justa, de Carlos Orsi, O Desejo de Lilith, de Ademir Pascale, Xochiquetzal, do também veterano Gerson Lodi-Ribeiro e Annabel & Sarah, do estreante Jim Anotsu, além dos dois números da coletânea que apresentou a editora para o público leitor, a Imaginários.

Mostrando que está antenada com o mercado, a editora lançou mês passado a seleta de contos “Meu Amor é um Vampiro”, reunido um time de escritoras nacionais pra fã nenhum de Crepúsculo botar defeito. Dos lançamentos programados, vale destacar alguns deles. O primeiro é o já anunciado volume três da Coleção Imaginários. Desta vez organizada pelo próprio Erick Santos, a coletânea reúne alguns nomes conhecidos do fandom a outros que estão começando a caminhada agora. “Neste volume, tive a preocupação de unir autores experientes, com uma literatura mais arrojada, a autores iniciantes com ótimas histórias. A ênfase ainda está na ficção científica e na fantasia, mas temos material de terror”, disse Erick Santos. Os destaques deste terceiro número ficam por conta do conto A Torre das Almas, de Eduardo Spohr, o primeiro spin off oficial do livro A Batalha do Apocalipse, a space opera O Primeiro Contacto, de Fábio Fernandes e Bonifrate, um conto steampunk de Douglas MCT.

Falando nele, outro lançamento aguardado para este segundo semestre que virá com o selo da Draco é o romance de dark fantasy Necrópolis: A Fronteira das Almas, de sua autoria. Segundo o release que anda circulando há algum tempo pela net, o livro conta a história de um jovem cético que descobre uma possibilidade de trazer o irmão caçula de volta a vida e parte para uma aventura no Reino dos Mortos. “Em sua jornada por Necrópolis, o jovem Verne Vípero contará com o auxílio de um ladrão velocista, de uma mercenária deslumbrante, de um monge renegado e de um assassino que veio dos céus, viajando por cenários bizarros e perigosos, onde em cada canto a morte está à espreita”, resumiu o autor. Roteirista de quadrinhos com passagem pela Turma da Mônica, o escritor faz parte da geração de aficionados por cultura multimidiática, então espere muitas referências de HQs, jogos, literatura pop, cinema e mangá. A capa, assinada pelo desenhista Victor Negreiro, é um detalhe à parte, aliás, como se tornou comum entre as capas desta editora.

Ainda na linha do fantástico, a Draco também recrutou o escritor e crítico de arte Eric Novello para seu time. Autor de Dante, o Guardião da Morte, uma fantasia histórica passada na Roma cesarina, e Histórias da Noite Carioca, livro que tem uma pegada mais voltada pro humor cotidiano, dessa vez ele se arrisca na fantasia urbana, gênero do qual tem levantado a bandeira a cada nova oportunidade. Neon Azul é um romance fix-up — termo bonito que serve para designar um conjunto de contos que funcionam de forma independente, mas que são interligados para contar uma história maior, de tamanho e complexidade semelhantes ao romance — que tem uma premissa, no mínimo, interessante.

Segundo o autor, o livro “é um romance sobre os frequentadores de um barzinho nada convencional. A pergunta que move a história é o que acontece quando somos colocados diante de nossos maiores medos e tentações?”. A história acompanha o dia-a-dia de prostitutas, artistas, empresários e outros seres que habitam os cenários noturnos de uma metrópole agitada, enquanto descobrem um pouco mais sobre o passado e o presente do bar. “Durante a escrita, busquei usar a fantasia não só na história, mas também na estrutura do texto. Chega um ponto em que o leitor precisa parar e tomar uma decisão: espera aí, isso é real ou não é?, eu posso acreditar no que estou lendo?”, completou o autor.

Partindo da fantasia para o terror, outro livro anunciado para este segundo semestre é A Corrente, o segundo do escritor e desenhista carioca Estevão Ribeiro. Saindo do universo inocente d’Os Passarinhos, tirinha cômica que se tornou sucesso na internet ano passado, o autor traz a história de um jovem que recebe um estranho email em sua caixa postal e, no melhor estilo passe adiante, reenvia a tal mensagem a sete pessoas. O problema começa quando as pessoas pra quem ele mandou o email passam a morrer misteriosamente. O livro tem uma das capas mais fortes que eu já vi, o que só aguça a curiosidade quanto à história.

Além destas novidades anunciadas, a Draco já tem na fila mais alguns lançamentos bacanas, como o romance O Baronato de Shoah, história de José Roberto Vieira que mistura dark fantasy e elementos steampunks e a coletânea Vaporpunk, que assim como os números um e dois da Coleção Imaginários também reunirá autores daqui e de Portugal com contos em torno deste tema que se tornou a menina dos olhos de muito escritor nacional.

Mas não é só a Draco que vem com boas surpresas, não. A editora Tarja, casa que já tem uns bons três anos de caminhada, anunciou recentemente o lançamento do romance Cyber Brasiliana, de Richard Diegues. A história se passa numa realidade alternativa pós-cyber, onde o mundo se tornou completamente diferente, com os países decadentes do eixo-norte confrontando as três grandes potências surgidas no eixo-sul: a União da República Brasiliana, a Africanísia e a Euronova. Invertendo a ordem atual das coisas, a trama apresenta um mundo em que a vida abaixo da linha do equador assumiu ares de utopia, enquanto no outro hemisfério as corporações lutam pelo controle do que restou dos antigos países. Nem precisa falar que a economia está em frangalhos e que o poder é mantido na base da força e da alta tecnologia, né?

A história também traz o conceito de Hipermundo, um sistema baseado em uma super-rede de servidores, no qual as pessoas desfrutam de uma forma complexa de realidade aumentada, utilizando-a para trabalho, socialização, cultura e registro digital de todas as informações mundiais. O autor já havia publicado alguns contos passados neste universo em antologias recentes, como a Paradigmas, e agora resolveu brindar os fãs de ficção cientifica com o lançamento do livro.

Entre as outras novidades da Tarja está o segundo romance do escritor Fábio Fernandes, que lançou o recente Os Dias da Peste, uma coletânea de contos cyberpunks — irmã da edição Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário, lançada ano passado — e uma série de quatro coletâneas, com temas que vão de histórias de realidades extraordinárias à fantasia urbana.

Outro lançamento que promete, dessa vez da editora Terracota, é o romance A Tríade. Escrito a oito mãos pelos autores Kizzy Ysatis, Octavio Cariello, Claudio Brites e Carlos Andrade, o livro parte da premissa “qual segredo une o Anjo, o Templário e o Vampiro?”, para contar uma história que se passa em duas épocas. Em plena Roma do século XVII, uma personagem misteriosa narra para o pintor Nicolas Poussin a saga da Tríade, que começa na grande guerra celeste que opôs Miguel e Lúcifer e que deu origem à peça-chave do maior quebra-cabeça que a humanidade já conheceu. De lá, a história pula para o século XIV, quando os templários estão sendo caçados como hereges pelo rei Felipe, o Belo. E em meio a essa caótica aventura, um vampiro desperta na Itália disposto a atacar os membros da poderosa Igreja Católica.

Os autores começaram uma interessante campanha de divulgação que inclui a distribuição via email de metade do livro antes do lançamento e um ARG — jogo de realidade alternativa — que vai presentear o ganhador com a espada de uma das personagens da história. As pistas já estão circulando em sites e blogs da internet e a brincadeira vai seguir até o RPGCON, que acontece em julho.

Enfim, novidade é o que não falta. Agora, é torcer para que estes autores façam a diferença e que os leitores comecem finalmente a perceber quanta coisa boa nós temos por estas bandas.

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