folder Categoria(s) Livros, SteamPunk
Vapor Punk - Lançamento SteamPunk
Rober Pinheiro comment Comentários access_time 12 minutos

Damas de feições aristocráticas ocultas sob longos vestidos de época, corsets apertados e sombrinhas; cavalheiros trajando elegantes fraques, devidamente paramentados com cartolas e chapéus, bengalas e acessórios que podem variar de goggles (óculos de proteção, similares aos usados por aviadores) a pistolas mecanizadas. Todos exalando uma insuspeita aura retrofuturista.

Se você encontrar esta turma em alguma esquina da cidade, não se assuste. Você não foi deslocado no tempo rumo ao passado. Ao contrário, é o passado que resurge com ares de futuro. E tais personagens se tratam apenas dos adeptos do SteamPunk, ou steamers, como são chamados, a mais nova “tribo” a surgir ente o mosaico de tendências das grandes metrópoles do Brasil. Porém, mais do que seguidores de um modismo, seja ele musical ou comportamental, os steamers tem na literatura sua fonte de inspiração. Inspiração, aliás, que já se estendeu para muito além das letras, abarcando áreas tão diversas como a moda, o cinema e as artes plásticas.

Surgido entre as décadas de 1980 e 1990, o Steampunk é um subgênero da ficção científica — ou ficção especulativa — que traz como premissa as histórias passadas na “era do vapor”, notadamente a Era Vitoriana, e o advento da Revolução Industrial. Cunhado em 1987 pelo escritor norte-americano K. W. Jeter, que procurava um termo apropriado para classificar as histórias narradas nos livros “Morlock Night”, de 1979 e “Infernal Devices”, de 1987, de sua autoria, assim como as dos escritores Tim Powers (“The Anubis Gates”, 1983), e James Blaylock (“Homunculus”, 1986), o Steampunk surgiu como uma espécie de sátira ao cyberpunk, apropriando-se de parte de sua composição e acrescentando, como nota dissonante, o vapor (steam), celula mater do novo gênero.

Com influências de autores como Júlio Verne, H.G. Wells, Mark Twain e Mary Shelley, que se tornaram os pilares do que seria conhecido como ficção científica, a estética Steampunk expandiu seu conceito e produziu obras famosas na literatura, como “The Difference Engine”, de William Gibson e Bruce Sterling e a “Trilogia Steampunk”, de Paul Di Filippo aos recentes “Anno Dracula”, de Kim Newman e “O Aviador”, de Kenneth Oppel; nos quadrinhos, com a “Liga Extraordinária”, de Alan Moore e Kevin O’Neill; nos animes, com “Fullmetal Alchemist”, “O Castelo Animado” e “Steamboy”, e nos cinemas, como a própria adaptação “d’A Liga Extraordinária”, “As Loucas Aventuras de James West” e os recentes “Van Helsing” e “Sherlock Holmes”.

No Brasil, o universo steamer, embora recente, já conta com uma boa projeção e o grande impulso para sua expansão em terras tupiniquins se deu com a formação do Conselho Steampunk, em 2008. Com cerca de dois anos, o Conselho já tem Lojas (termo emprestado do conceito maçônico para unidade local – “Lodges”) em muitos estados do país, com uma considerável legião de admiradores e participantes.

Na literatura, o primeiro passo concreto dentro deste universo foi dado ano passado, com o lançamento do livro “Steampunk, Histórias de um passado Extraordinário”, antologia organizada por Gianpaolo Celli, que saiu pela Tarja Editorial. Reunindo um time de oito escritores, entre eles Cláudio Villa, Jacques Barcia, Romeu Martins, Flávio Medeiros, Fábio Fernandes, Alexandre Lancaster e Roberto de Sousa Causo, além do próprio Gianpaolo Celli, o livro primou pelo ineditismo de reunir autores nacionais que trabalharam, embora não exclusivamente, a estética steampunk. De contos mais universais, como “Uma Breve História da Maquinidade”, de Fábio Fernandes, “O Assalto ao Trem Pagador”, de Gianpaolo Celli e “Por Um Fio”, de Flavio Medeiros, passando por contos com temática mais nacional, como “A Flor do Estrume”, de Antonio Luiz M. C. Costa, “Cidade Phantástica”, de Romeu Martins e “O Plano de Robida: Une Voyage Extraordinaire”, de Roberto de Sousa Causo, o livro ainda abre espaço para uma interessante história que se volta para as HQs, (“A Música das Esferas”, de Alexandre Lancaster) e outra que põe um pé — se não os dois — no new weird (“Uma Vida Possível Atrás das Barricadas”, de Jacques Barcia). A antologia alcançou um relativo sucesso junto aos leitores daqui e de fora, recebendo comentários elogiosos até de Jeff VanderMeer, um dos papas mundiais do Steampunk.

Graças à bandeira levantada por esta coletânea, e por entusiastas do movimento como o escritor Romeu Martins, a literatura a vapor começou a despertar mais e mais interesse e no finalzinho de 2009 o escritor Bruno Accioly, um dos participantes mais ativos na divulgação deste gênero no Brasil cunhou, em um artigo sobre o movimento, o termo “O Ano do Vapor”, em referência às muitas novidades que surgiriam em 2010 relacionadas ao Steampunk.

Entre as boas novas, está a tão esperada publicação do livro “The Difference Engine” (A Máquina Diferencial, em tradução livre), do William Gibson e Bruce Sterling, pela editora Aleph, os livros “O Baronato de Shoah”, de José Roberto Vieira, que mistura à estética steam um tanto de dark fantasy (ou fantasia obscura, para aportuguesarmos a coisa) e “O Peregrino”, de Tibor Moricz, um west steampunk, o mangá Hansel & Gretel, de Douglas MCT e uma coletânea recentemente anunciada pela Editora Draco.

“Vaporpunk, Relatos steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades” reúne um novo time de autores que se debruçaram sobre esta temática, capitaneados pelos escritores-organizadores Gerson Lodi-Ribeiro e Luís Filipe Silva. Um brasileiro e o outro, português.

Aliás, se a Steampunk primou pelo ineditismo, a Vaporpunk prima por ser a primeira a reunir autores dos dois lados do Atlântico com contos movidos a vapor — e muita imaginação — também passados tanto lá como cá.

A coletânea, cujo lançamento foi anunciado para o 4º Fantasticon, simpósio de literatura fantástica que acontece de 27 a 29 de agosto na Biblioteca de Literatura Fantástica Viriato Correia, em São Paulo, traz oito noveletas onde disputas políticas, personagens famosos e armas engenhosas dão o tom da vez.

Gerson Lodi-Ribeiro, a parte brasileira envolvida na organização, explicou resumidamente a escolha do tema: “Por que Vaporpunk? Para mostrar que a vertente literária da estética steampunk é mais do que máquinas a vapor numa Inglaterra pseudovitoriana. Para contar essas histórias de vapor, aventura e progresso tecnológico precoce com sabor e aroma lusófono”.

O autor, que teve seu mais recente livro, “Xochiquetzal”, lançado pela Draco, também falou um pouco sobre a sua história: “O conto “Consciência de Ébano” mostra um agente secreto dividido entre a lealdade à pátria de Palmares e à etnia negra, de um lado, e suas definições de Bem e Mal, do outro”.

Outro autor nacional presente na coletânea, Octavio Aragão, aborda em sua história a dicotomia entre o novo e o velho. Em “A Fazenda-relógio” mecanicidade, modernidade e maturidade nem sempre trilham os mesmos caminhos. “A sedução da máquina, com promessas de produção e velocidade, numa sociedade agrícola e patriarcal poderia ser o estopim de um novo tipo de revolução num Brasil onde escravos e latifundiários formam as duas extremidades de um triângulo completado por indesejados e surpreendentes bonecos mecânicos”, escreveu o autor.

Carlos Orsi, escritor que cometeu a façanha de publicar dois livros no mesmo ano, “Guerra Justa”, pela Draco e “Nômade”, pela Ciranda de Letras, também marca presença na Vaporpunk. Seu conto, “A Extinção das Espécies”, é um “mashup” que mistura trechos reais dos diários da viagem que Charles Darwin fez ao Brasil e à Argentina no século XIX com eventos de uma realidade alternativa onde o conceito de élan vital — uma teoria do século XVIII segundo a qual a vida seria um tipo de “fluído” absorvido pela matéria — é real. Segundo o autor, “a ideia é o que aconteceria se os mesmos cientistas que, no século XIX, descobriram e aprenderam a manipular a energia elétrica tivessem descoberto e aprendido a manipular o élan”.

Eric Novello, autor que ultimamente tem se dedicado à fantasia urbana e que anunciou recentemente o lançamento de seu terceiro livro, “Neon Azul”, também resolveu embarcar no vapor, mas sem deixar a fantasia totalmente de lado. Seu conto, “O Dia da Besta” mescla à estética steampunk elementos desta vertente fantástica. Segundo ele, “o conto acompanha dois policiais de elite de D. Pedro II que investigam o ataque de uma criatura bem diferente no porto do Rio de Janeiro. Ela é capturada e levada para o laboratório do Jardim Botânico, onde a bagunça começa”. Cavalos mecânicos, metamorfos, armas giratórias e uma Princesa Isabel rebelde são alguns dos elementos que o autor traz para a história.

“Estou muito contente em participar da coletânea, dado o time de ouro que foi selecionado. Quando vi o nome do Gerson envolvido, já sabia que teria qualidade. Como é meu primeiro texto no gênero, estou bastante ansioso pela opinião dos fãs”.

Entre os autores portugueses, Jorge Candeias traz uma história que, segundo ele, nasceu duas vezes. “Do primeiro nascimento resultou uma coisa confusa e com pouco nexo, viagens de dirigível ao longo da costa ocidental africana e depois através do Atlântico, que além do mais distraía demasiado da história principal que eu queria contar”.

Após esta primeira experiência, o autor pensou em desistir, até que uma nova ideia surgiu. Segundo ele, esta segunda história “distrai muito menos que a história principal e recupera parte da atmosfera desenvolvida no primeiro nascimento, além de apresentar personagens inteiramente novas e um novo pano de fundo geográfico”.

João Ventura é outro autor português presente na coletânea. Seu conto gira em torno das ideias do Padre Himalaya, cientista e inventor português que em 1904 ganhou o Grand Prize da World Fair Exposition em St Louis, EUA, com um concentrador solar que conseguia fundir metais. “Imagine alguém em 1908 afirmando que a hulha e mais algumas espécies de carvão fóssil, o petróleo e outros combustíveis minerais estavam em vias de esgotamento e não mais se reproduziriam naturalmente. E se as ideias do Padre Himalaya tivessem vingado?”. Segundo o autor, “O Sol é que alegra o dia…” mostra o que poderia ter acontecido.

Também participam da Vaporpunk os autores Yves Robert, com o conto “Os oito nomes do Deus sem nome” e Flávio Medeiros Jr., com “Os primeiros astecas na lua”.

Ah, um último — mas não menos interessante — detalhe da coletânea: a capa! Anunciada semana passada no blog Cidade Phantástica, do Romeu Martins, a arte criada por Erick Santos, editor da Draco, causou furor entre os aficionados pelo gênero. Em entrevista ao blog, ele contou de onde surgiu a inspiração para desenvolvê-la: “O gênero steampunk sempre me chamou a atenção, tanto em jogos como “Final Fantasy VI”, e animes como “Steamboy” como no próprio “The Difference Engine”. Em todos eles, a questão estética aliada ao conteúdo foi fundamental. Então, decidi explorar o visual, apresentando a excentricidade da época e mostrando a força da tecnologia no imaginário steampunk. Esse foi o meu ponto de partida. Por ter em mente que precisaria de uma técnica que transmitisse melhor a sensação de realidade, escolhi [utilizar] o 3D e as fotos. Usei como referência a abertura do anime “Steamboy”, que traz um grande mecanismo que apresenta o título, além do filme mais recente de “Sherlock Holmes”, que me ofereceu a tipologia ideal para a execução”.

O resultado, ao que parece, agradou bastante. Também, pudera. A capa da “Vaporpunk, Relatos steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades” é, de longe, uma das mais chamativas da ficção nacional.

Vaporpunk – Relatos steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades

Autores: Vários
Editora Draco
Organizadores: Gerson Lodi-Ribeiro e Luís Filipe Silva
Gênero: Ficção científica – Steampunk
312 Páginas
Preço de capa: R$ 49,90
Disponível em 27/08/2010 através do site da editora (www.editoradraco.com) ou nas grandes livrarias.

anubis gates com história james blaylock vapor steam