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Bruna Surfistinha - Crítica
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Há alguns anos, quando alguém tinha a ousadia de juntar as palavras “cinema” e “brasileiro” numa mesma frase, as cenas que logo vinham à cabeça — em 90% dos casos — eram pornográficas. Os anos 70 tinham “presenteado” o público brasileiro com um novo e inusitado gênero: a pornochanchada. No discurso, era um movimento libertário, que ia de encontro à censura sem critérios de nossa ditadura moralista. Na prática, a história era bem diferente…

Hoje, mesmo com a variedade de temas que a Retomada nos trouxe, essa injusta associação ainda perdura. Ainda bem que nosso cinema atingiu um grau de maturidade suficiente para desenvolver temas que tangenciam os do passado, sem precisar enveredar pelos mesmos caminhos. Sem ter que apelar para o óbvio e, conseqüentemente, para o ridículo.

Bruna Surfistinha é baseado no best-seller O Doce Veneno do Escorpião, organizado por Jorge Tarquini, a partir de uma série de depoimentos de Raquel Pacheco (o verdadeiro nome da web-celebridade). O filme mostra a trajetória daquela que seria chamada a garota de programa mais famosa do Brasil, desde os tempos de escola – onde era considerada a estranha da turma -, passando por sua entrada abrupta no mundo da prostituição, sua ascensão meteórica, a queda vertiginosa (em meio ao abuso de drogas e álcool), fechando com o início de seu ressurgimento.

O maior mérito do roteiro de José Carvalho, Homero Olivetto e Antonia Pellegrino foi ter conseguido passar longe de todos os clichês que pudéssemos imaginar no caminho do cinema. As cenas de sexo estão presentes, obviamente – e em abundância (sem trocadilhos, por favor). Mas cada uma delas tem sua relevância para a história. É bom adiantar que nem todas estão lá para excitar o público. A opção por uma narrativa que, em momentos-chave, foge da linearidade, fez com que o filme escapasse de duas armadilhas recorrentes em retratos de personagens marginalizados: a opção pela glamorização ou pelo julgamento moral.

Mais um ponto positivo – a bela direção do estreante Marcos Baldini, que conseguiu criar uma mescla interessante de drama, humor, violência e erotismo. A fotografia, os grafismos e a trilha sonora são outros pontos fortes da película, que segue num ritmo acertado, graças à ótima edição de Manga Campion e Oswaldo Santana.

Quem acha que Bruna Surfistinha é mais um “filme brasileiro”, naquele velho sentido pejorativo, cheio de cenas de sexo e sem nenhuma mísera qualidade que o salve, vai se surpreender. Aqueles que só pensam em ver o filme para “apreciar a bela silhueta” de Débora Secco, com certeza, vão se deliciar. Mas é certo que deixarão a sala de cinema com a sensação de terem recebido muito mais do que esperavam quando compraram o ingresso.

Serviço

Diretor: Marcus Baldini
Roteiristas: José Carvalho, Homero Olivetto, Antonia Pellegrino
Elenco: Deborah Secco, Cassio Gabus Mendes, Drica Moraes, Cristina Lago, Fabíula Nascimento
Gênero: Drama

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