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A Lua vem da Ásia - crítica de Rangel Andrade
Rangel Andrade comment Comentários access_time 5 minutos

Ir ao teatro se tornou uma experiência muito prazerosa nos últimos finais de semana. É quase como um ritual: tomar banho, colocar uma roupa legal, passar um perfume não muito doce, apagar as luzes, caminhar lentamente rumo ao desconhecido e se entregar a catarse por alguns minutos. Ultimamente tenho tentado assistir peças sem ler nada sobre, a expectativa me deixa mais eufórico para o que me espera. A peça deste final de semana tem um título meio estranho: A Lua vem da Ásia. Abdiquei de todas minhas primeiras impressões e mal sabia o que me espera…

O belissímo texto é uma adaptação de um livro homônimo de Campos de Carvalho, publicado originalmente em 1956. É o diário de um homem que se chama Astrogildo – mas já foi Adilson, Heitor, Ruy Barbo – e está hospedado em um hotel de luxo que, talvez seja um campo de concentração ou um manicômio. A loucura é o tema central deste romance, cujo protagonista inicia o relato confessando que, aos 16 anos, matou seu professor de lógica e foi viver sob uma ponte do Sena… embora nunca tenha estado em Paris.

A primeira parte do texto é mais política e nos coloca dentro deste hotel onde nosso protagonista se encontra encerrado (ou jogado, ou preso, ou exilado) e é onde estão as frases mais belas de Campos de Carvalho, como a indagação por saber em qual momento a noite é mais escura ou porque a loucura é a doença de quem diz a verdade.

Na segunda parte Astrogildo consegur fugir (ou não) e enfileirando recordações (ou alucinações?) de suas passagens por Melbourne, Varsóvia, Cochabamba, Cuzco, Madagascar, Nova York, Cidade do México e, claro, Paris, Astrogildo torna-se o narrador de um mundo governado pela lei do absurdo, mas que parece assustadoramente semelhante à nossa normalidade cotidiana.

Moacir Chaves consegue tirar de Chico Diaz uma disponibilidade cênica que deixa muito ator iniciante com inveja. Chico pula, dança, corre, pula, gira, grita, pula, nada, deita e deixa a platéia cansada. Mas seu grande mérito está em se apoderar de mais de 95 mil palavras e dizê-las como se fosse uma criança contanto aos pais sobre sua traquinagem no colégio. Chico é de uma sutileza e uma fé cênica que em determinados momentos da vontade de levar seu personagem para um pique-nique tamanha é a verdade que sai de seus olhinhos que tem muito a dizer.

Renato Machado é quem assina a iluminação do espetáculo, e talvez seja uma das mais belas interações que se vê hoje no Rio de Janeiro entre iluminação, cena, figurino e cenografia. As luzes criadas por ele transmitem ao mesmo tempo o interior do personagem e delimita o espaço, como o momento em que é narrado sobre o banho de sol dos prisioneiros (ou doentes, ou fugitivos) e as luzes são mais fortes do lado de fora do “quarto” do protagonista ou o momento em que ele tem uma alucinação e é envolto por uma luz vermelha que pulsa como seu sangue.

Acredito muito na força do teatro que mexe com nossas crenças e nos faz repensar qual seria nosso papel na sociedade hoje. E esses questionamentos não precisam vir revestidos de palavras bonitas ou teorias sociológicas do século XIX (que me perdoe Marx e Engels, nada contra!), é fundamental que se toque o receptor e remexa e remoa algo que pulsa lá dentro.

Obrigado Chico, Moacir e Campos de Carvalho, o trabalho de vocês merecem ser visto pelas multidões que lutam conta o regime de Kadaf, pelas novas gerações que vivem sob a ótica da esperança nos morros cariocas e também pelos que já se fecham em seus mundos particulares e não acreditam no outro (esses sim, merecem ser remoídos).

Serviço

A Lua vem da Ásia, adaptação do livro homônimo de Campos de Carvalho por Chico Diaz. Direção Moacir Chaves. Com Chico Diaz.
Local: Teatro Sesi (Rua Graca Aranha,1- Centro)
Tel: (21) 2563-4168
Horário: de sexta a domingo às 19h
Bilheteria: Terça a sexta, das 12h às 20h e sábado, domingo e feriado, duas horas antes do espetáculo
Ingressos: R$ 40,00 (inteira)
Classificação: 14 anos
Duração: 80 minutos
Temporada: de 12 e agosto a 25 de setembro

Ficha técnica

Patrocínio: Banco do Brasil
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil
Atuação e adaptação: Chico Diaz
Direção: Moacir Chaves
Cenografia: Fernando Mello da Costa
Figurinos: Maria Diaz
Vídeos: Eder Santos e Trem Chic
Direção de movimento: Márcia Rubin
Trilha sonora: Alfredo Sertã
Preparação vocal: Rose Gonçalves
Fotografia: Viviane Castelloni
Direção de Produção: Wagner Uchoa
Uma realização IRAZU PRODUÇÕES ARTÍSTICAS

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