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Na Selva das Cidades - crítica
Rangel Andrade comment Comentários access_time 4 minutos

Convidei um amigo para ir assistir a peça Na Selva das Cidades que está em cartaz no CCBB. Tentei não ler nada antes, porque queria ir de mente aberta (e consegui). Cheguei um pouco mais cedo porque queria curtir o clima cultural do local e retirar meus ingressos. Depois de uma espera de uns vinte minutos meu amigo chegou, colocamos o papo em dia e fomos para o teatro: assentos F11 e F12.

Ao entrar nos deparamos com um palco escancarado que deixa a mostra objetos de cenas nas duas extremidades, um painel ao fundo com alguns desenhos sujos e borrados e alguns fios que cortam a cena de um lado a outro.

É dado o terceiro sinal e inicia nossa viagem pela Chicago de 1912 e a guerra fria entre o jovem Garga e o astuto malaio Shilink (esplendorosamente interpretado por Daniel Dantas) e as implicações que o desejo de ter dinheiro pode trazer a uma família. Garga não admite vender sua opinião a Shilink e inicia um jogo de gato e rato com este: o malaio se sente ofendido e troca de papel com o mancebo obrigando-o a cuidar dos seus negócios. Porém o que era para ser uma simples brincadeira acaba se tornando uma luta de classes onde o dinheiro vai destruindo os ideais de Garga e reafirmando as teorias de Shilink.

Bertolt Brecht é atemporal e seu texto consegue tocar nas mais profundas camadas do ser humano, não é uma peça fácil que deve ser vista como puro divertimento, é agonizante, destruidora, pensativa. As transformações dos personagens são sutis, mas de uma força tamanha que ao final da peça nos perguntamos: “até onde podemos ir?” E a resposta talvez esteja na frase mais simples dita por Shilink: “Eu te amo, se isso ajuda”.

Aderbal Freire-Filho quebra algumas barreiras do teatro tradicional e resgata a essência proposta por Brecht, quando este diz que a platéia tem que ver que aquilo é teatro. Temos um narrador em cena que antes de uma nova cena nos relata onde é e quem está presente na próxima sequência, narrador este que fala alemão (mais Brecht impossível!)! Os próprios atores montam e remontam o cenário, tudo escancarado e sem
medo de revelar que por traz de toda aquela magia existem homens que pensam e exigem que seu público também repensem alguns valores.

Bati minhas palmas com a vontade de permanecer sentado e ficar admirando aqueles atores em cena e repassei em minha mente cada gesto, cada palavra, cada momento não visto, mas as poucos a multidão foi saindo e o fluxo me levou… Deixei meu amigo no metrô, conversei sozinho pela rua, ri, pensei, mas o sentimento de inércia causado pela peça ainda morava em mim … Ajuda Isso Se Eu Te Amo nem embaralhando as palavras consegui compreender a essência da frase. Paro por aqui.

Serviço

Teatro I CCBB RJ
Temporada: 10 de agosto a 09 de outubro de 2011, quarta à domingo, às 19h
Preço: R$10,00 (inteira) e R$5,00 (estudantes e maiores de 65 anos
pagam meia-entrada)
Endereço: Rua Primeiro de Março, 66 Centro – Rio de Janeiro – RJ
Informações: (21) 3808-2020
Classificação Indicativa: Não recomendado para menores de 16 anos

Ficha Técnica

Na Selva das Cidades
Texto: Bertolt Brecht
Tradução: Aderbal Freire-Filho, Nehle Franke, Patrick Pessoa e Roberto Franke.
Direção: Aderbal Freire-Filho
Diretor Assistente: Fernando Philbert
Elenco: Daniel Dantas, Fernanda Boechat, Ines Viana, Joelson Medeiros,
Leonardo Netto, Marcelo Olinto, Maria Luisa Mendonça, Milton Filho e
Patrick Pessoa
Cenário: Fernando Mello da Costa
Figurino: Juliana Nicolay
Iluminação: Maneco Quinderé
Trilha Sonora e Direção Musical: Marcelo Alonso Neves
Projeto Gráfico: Mary Paz Guillén
Direção de Produção: Alice Cavalcante e Marcelo Olinto
Produção Executiva: Renato Oliveira
Assistentes de Produção: Carolina Vilar e Julia Menna Barreto
Gerenciamento de Projeto: Sábios Projetos
Fotografia: Dalton Valério
Assessoria de Imprensa: Sol Maior Comunicação
Orientação Teórica: Patrick Pessoa
Produção: Marcelo Olinto e Sábios Projetos
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil
Patrocínio: Banco do Brasil e Ministério da Cultura

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