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Grinmelken, a aposta fantástica — e acertada — de Leandro Reis
Rober Pinheiro comment Comentários access_time 7 minutos

Até bem pouco tempo, pensar em literatura fantástica nacional, especialmente em alta fantasia e medievalismo épico [em grande parte, graças à velha máxima que prega que o Brasil não viveu de facto uma era medieval e blá-blá-blá], era algo bastante extraordinário — e escrevê-la, pouco recomendável. Se por um lado, uma parcela muito pequena de escritores oriundos da chamada Primeira Onda da Ficção Cientifica Nacional, e aqueles anteriores a ela, conseguiu manter-se ativa em um espaço bastante reduzido, lutando bravamente — e isso não é força de expressão — para não ser engolida pela literatura reinante, aquela dita mainstream — ou do cotidiano, ou literatura de academia, como queiram — por outro, salvo obviamente as raras exceções, aqueles que de fato se voltaram para as histórias épico-fantásticas / realistas mágicas não conseguiram ter o retorno justo ou o espaço merecido dentro do seu métier. Claro, não me refiro aqui a cânones do porte de um Veríssimo ou de um Rosa, de um Suassuna ou de um Veiga, até mesmo porque estes são nomes que, no consenso geral, transcenderam essas denominações restritivas, mas o fato é que a fantasia em sua conotação moderna ganhou força somente há pouco tempo por essas bandas.

Livros fantásticos nunca deixaram de surgir aqui e ali — mesmo se disfarçados e inseridos no contexto literário comumente aceito, ou seja, livros com temática e enfoque fantásticos, mas que não traziam em sua apresentação tal identidade; João Ubaldo Ribeiro, Moacir Scliar e, mais recentemente, Santiago Nazarian, somente para citar alguns, são bons exemplos deste enfoque [embora, vale dizer, que este último tenha assumido mais abertamente seu viés fantástico em seus últimos livros]. Já as histórias descaradamente fantásticas, longe de receberem o status de obras literárias, eram vistas com ressalvas pela maioria dos editores e das grandes casas literárias, sem contar, obviamente, os olhos míopes da academia — algo que, de certo modo, mudou pouco até hoje. Se um livro fantástico NACIONAL [e é bom deixar essa particularidade bem clara, em letras garrafais e sublinhadas] já não era visto com bons olhos, trilogias, então, além de não reconhecíveis, eram algo quase abominável. Dizer-se autor de uma trilogia fantástica era perder 90% de chances de ser publicado.
Mas, felizmente, há aqueles corajosos que seguiram firmes com esse pensamento. Graças a isso, e ao boom fantástico ocorrido no começo do século, vimos surgir ciclos de longas histórias — a exemplo da clássica trilogia Padrões de Contato, de Jorge Luiz Calife —, aventuras que não cabiam em um único livro, mas que se dividiam em trilogias, tetralogias ou outras tantas logias mais ousadas em quantidade e números de páginas, casos de escritores como Helena Gomes, Nazarethe Fonseca, Leonel Caldela, Rafael Draccon e Leandro Reis.

Este último, escritor de uma nova safra de fantásticos influenciada pelo mass media — caldo que engloba desde filmes e séries a quadrinhos e jogos de imaginação — trouxe em seu trabalho não apenas uma história épico-fantástica, mas um universo inteiro, mistura de sua paixão por jogos, livros, músicas e RPG. “Meu mundo é uma junção de tudo o que gosto, criado da forma como eu imaginei que seria mais divertido de usar” — explica o autor. “Grinmelken é um misto de ideias e sonhos, formado a partir de elementos que sempre foram uma paixão pra mim, como a fantasia e as histórias medievais”.

Pincelando referências que vão desde os clássicos cinematográficos — ao menos para um bom geek que se preze — Os Mestres do Universo, o famigerado filme oitentista sobre o musculoso He-Man, o defensor de Etérnia, e Willow, na Terra da Magia às HQs de Asterix, Groo e Conan, desenhos como A Caverna do Dragão, adorado por dez em cada dez nerds, e os games Diablo e Final Fantasy, Reis deu vida a um universo extremamente intrincado, formado por uma sem número de raças, povos e lugares inseridos em um mundo que deve muito de si às lendas arturianas e à Terra Média de Tolkien.

“Tudo começou com o ‘Radrak’, um personagem que criei para jogar uma aventura de RPG que nunca aconteceu. Frustrado, decidi fazer o meu próprio jogo. Nascia aí Grinmelken”. Curiosamente, Radrak é o epíteto pelo qual o autor é conhecido na Internet, prova de que suas ideias ganharam mais do que as páginas dos livros, ganharam vida própria.

Como todo bom tolkieniano, Reis conta que começou a esboçar seu mundo desenhando mapas e dando nome às coisas, lugares e personagens, para depois ver o que aqueles nomes significavam ou qual era a história por detrás deles. Deste processo de criação às avessas, surgiu os principais locais onde transcorrem as aventuras de sua primeira trilogia, chamada de Legado Goldshine, nomes curiosos como Floresta dos Enforcados, Cordilheira do Conflito Eterno e Cidadela Invertida, além das inúmeras raças que compõem o mosaico de seres grinmelkenianos, incluídos aí elfos, dragões, vampiros, mortos-vivos e, claro, humanos.

Inicialmente pensado como uma tetralogia, o arco de histórias da princesa guerreira Galatea Goldshine, herdeira de Galagah, um dos mais importantes reinos do continente de Grinmelken, e de seus companheiros acabou sendo contado e contido em três livros, todos eles lançados com a chancela da editora paulista Idea. Filhos de Galagah, lançado em 2008, abriu a trilogia em grande estilo, sendo posteriormente seguido pelos volumes O Senhor das Sombras e Enelock.

Belamente ilustrado pelo desenhista Licínio Souza, o livro inovou ao apresentar um diferencial até então quase inexistente para uma obra fantástica nacional: um book trailer, recurso que se tornaria uma marca registrada dessa trilogia. Feito a partir dos desenhos que ilustravam o livro, o vídeo criado por Leonardo Reis, irmão do autor, surpreendeu pela qualidade, dando uma excelente visibilidade à obra.

Além do vídeo, Reis elaborou um site para expandir a experiência de seu universo para outras fronteiras, seja através dos contos periodicamente publicados — além daqueles lançados em coletâneas e antologias, caso de Olhos de Herói, publicado no Terceiro Volume da Coleção Paradigmas [Tarja Editorial, 2009], Esperança Corrompida, presente na coletânea No Mundo dos Cavaleiros e Dragões [All Print, 2010], A Bruxa Vermelha, do projeto Tratado Secreto da Magia [Andross, 2010] e O Deus Mantícora, da excelente coletânea Bestiário (Ornintorrinco, 2012] — ou de dados e informações extras sobre raças, deuses e lendas.

Ficou curioso para conhecer mais do trabalho do Leandro? Pois não fique!
A partir de hoje e durante o resto da semana, o OC irá trazer uma série de matérias especiais sobre este autor joseense e sobre seu universo fantástico, Grinmelken. Vamos conhecer um pouco mais de cada um dos livros, sua trajetória, desafios, além das personagens e dos cenários que aparecem ao longo desta fantástica história nacional [uma bela conquista tanto pessoal quanto literária].

Então, esteja aqui amanhã para embarcar nesta viagem, ao lado de guerreiros, elfos, bruxas e dragões, pelo mundo fantástico de Grinmelken.

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Grinmelken Leandro Reis