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"Tone-Deaf" (2019)
Uma crítica nada sutil a Millenials, Baby Boomers e "tudo isso que aí está"
Bruno Accioly comment Comentários access_time 4 minutos

Escrito e dirigido por Richard Bates Jr., “Tone-Death“, sem data de estréia no Brasil, é um filme incomum, que flerta com uma crítica às gerações mais novas, passa pela crítica aos cinquentões e sessentões e termina como uma ode às falhas de todos nós.

O autor dirige há uma década e lançou apenas seis filmes, sendo pouco conhecido mas bem sucedido com três filmes relativamente obscuros mas com boas notas no IMDB: “Excision” (2012), “Suburban Gothic” (2014) e “Trash Fire” (2016), todos roteirizados por ele mesmo.

“Tone-Death”, lançado este ano, acompanha um péssimo dia na vida de uma péssima pianista chamada Olive, vivida por Amanda Crew (“The Age of Adaline“, de 2015), dia este que acaba sendo seguido por outros dias nada agradáveis.

“Estou desempregada!
Agora sou uma verdadeira norteamericana!”

Tendo perdido o emprego, o namorado e levando a típica vida de uma jovem adulta na América do Norte, com todas as suas vantagens e defeitos, Olive é uma Millennial encarnada, apelido dado à Geração Y, representada pelas pessoas nascidas entre 1979 e 1995.

O filme, inicialmente, carrega nas tintas sobretudo das características dos Old Millennials, crianças e adolescentes nos anos 90 que, devido a Internet, das facilidades dos dias de hoje e das liberdades herdadas de décadas de lutas por direitos civis e por um mundo mais justo, apresentam características muito particulares a eles atribuídas.

Olive foge dos problemas e da "cidade grande"
Olive foge dos problemas e da “cidade grande”

Tentando se afastar dos problemas, Olive resolve se aventurar em algo incomum: sair da cidade grande e ir para uma cidade “do interior”, sendo que ela acaba alugando um casarão por conta de um piano que vira no anúncio.

O proprietário da mansão, por sua vez, é Harvey, encenado por Robert Patrick, um secretamente rabugento e ressentido Baby Boomer, que é o apelido dado às pessoas nascidas entre 1946 e 1964, essencialmente aqueles que nasceram depois da Segunda Guerra Mundial em países que experimentaram súbito aumento de natalidade.

“Você quer fazer a diferença? Quer ser um instrumento de mudança? Aqui está uma ideia: beba um galão de alvejante! Perdoe-me se sou indelicado. A vida é sobre trabalho duro e sacrifício então, uma vez que vocês, Millennials, vão deixar o trabalho duro para a minha geração, o mínimo que você pode fazer é se sacrificar. Então deixe de lado sua superioridade moral anti-Mudanças Climáticas e faça algo a respeito do superavit populacional!”

Verborrágico, ao contrário da reticente e suscinta Olive, Harvey quebra a quarta parede constantemente em cena, se falando diretamente com espectador, desafiando-o com um tom hostil e dando ideias infames sobre como ele poderia combater o superavit populacional se matando de uma vez e outras pérolas sarcásticas.

Harvey se falando diretamente com o espectador
Harvey se falando diretamente com o espectador

O filme esboça suas críticas mordazes em passagens que ressaltam o rigor e violência de Harvey e a displicência, entediada, descuidada e voluntariosa de Olive, que age de forma inconsequente e desdenhosa enquanto o senhorio assiste a tudo seguindo-a com um voyerismo típico de um predador sexual chauvinista desprovido de qualquer retidão política.

De forma irreverente, Richard Bates Jr. dá um jeito de fazer um trocadilho com o próprio nome, transformando o antagonista em um assassino que ataca um abusador de mulheres – representante da Geração X (1965 – 1980) –  em um motel de beira de estradas cujo nome o autor deve ter tido a dificuldade de não batizar de Bates Motel!

O desfecho inusitado do filme é impagável e acaba envolvendo a mãe de Olive que, sempre ausente, é o retrato da contra-cultura, um ponto fora da curva dos Baby Boomers e representante tardia do movimento Hippie e que vive em uma comunidade alternativa sabe-se lá onde.

O filme, em sua crítica nada sutil, acaba criticando sutilmente, através da metáfora da surdez para “tons“, a incompetência de cada geração em se comunicar de forma bem sucedida com a outra, impondo sua melodia em uma cacofonia caótica, no lugar de buscar qualquer forma de harmonia.

Talvez um dos poucos filmes que estejam efetivamente discutindo, ainda que jocosamente, sobre o conflito de gerações que vivemos na atualidade, “Tone-Death” aborda o tema sempre ao som das melodias incongruentes, auto-indulgentes e absolutamente desqualificadas que o autor atribuiu à Millennial que, para o melhor e para o pior, é a protagonista e heroína do filme e da realidade que nos cerca.

Serviço

Título Original: “Tone-Death” (2019)
Título em Português: Não anunciado
Nota no IMDB: 4.8
Estréia Projetada: 10 de Março de 2019
Estréia no Brasil: Sem data de estréia

Elenco

Amanda Crew, como Olive
Robert Patrick, como Harvey