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World on a Wire
Em "O Mundo por um Fio", R.W. Fassbinder, em 1973, trouxe a Realidade Virtual para a TV alemã
Bruno Accioly comment Comentários access_time 3 minutos

Baseando-se na obra de Daniel F. Galouye, de 1964, “Simulacron-3” (ou “Counterfeit World”), “World on a Wire” (do alemão “Welt am Draht”) é um filme especial não só pelo tema revolucionário que ainda hoje parece desnortear o público mais incauto desacostumado com Ficção Científica – mesmo tanto tempo depois de “Matrix”.

Trata-se de um raro filme de Fassbinder no gênero SciFi que esconde, sob o sub-gênero da Ficção Paranóide, conceitos Filosóficos e Sociológicos que leitores de obras semelhantes já identificavam na Realidade Virtual, como a alienação e indisposição do Homem diante do seu entorno e o torvelinho de mentiras e meias verdades que permeia a sociedade e a relação entre o Homem e o Estado.

Gloria Fromm, vivida por Barbara Valentin
Gloria Fromm, vivida por Barbara Valentin

Revolucionário, o filme já em 1973 apresentava a noção de que o personagem principal, Fred Stiller (vivido por Klaus Löwitsch), é um Engenheiro de Sistemas responsável pelo desenvolvimento de uma Realidade Virtual extremamente imersiva e convincente que se vê questionando a realidade em que ele mesmo vive como possivelmente sendo ela mesma uma simulação de uma “realidade maior”.

Inevitavel, hoje, comparar com obras como “Matrix” e “O 13º andar”, obviamente, mas todas estas obras bebem na fonte Platônico-Socrática de mais de 2500 anos, presente no Mito da Caverna, um extrato de “A República“, de Platão.

A obra foi apresentada em duas partes em 1973, uma dialogando com um estilo de direção de vanguardista, fazendo referência a Jean-Luc Godard e a outra se afinando mais com uma direção mais clássica e assemelhada com a obra de Douglas Sirk. Ambas lançando mão de recursos sutis de Color Grading para evidenciar cenas dentro e fora da Realidade Virtual, o que seria usado por outros filmes nos dias de hoje.

O acesso à Realidade Virtual em "World on a Wire"
O acesso à Realidade Virtual em “World on a Wire”

É inegável a influência do estilo de Stanley Kubrik (“2001“) em termos estilísticos, bem como a influência de autores literários como Kurt Vonnegut (“Slaughterhouse-Five“) e Philip K. Dick (“We can remember it for you wholesale“), o que deixa muito à vontade o fã de SciFi ao mesmo tempo que envolve o filme do carisma da Geração Campbell, quase sempre bem sucedido com o público que desconhece o gênero.

Com uma Direção de Arte inteligente, Fassbinder consegue, lançando mão de elementos gráficos e de design incomum, criar uma sensação de Futurismo fugidio e convincente que expressa uma modernidade que foge do Camp e do Kitsch ao tentar expressar que o filme se desenrola em um momento no Futuro não muito distante.

Os atores principais, mais atuantes e humanos, em relação aos extras intencionalmente bidimensionais em termos dramatúrgicos e cenicamente inexpressivos, causam desde o início, no espectador, uma estranheza que logo se converte em desconfiança e didaticamente enleva-o a duvidar da natureza do universo que se descortina na tela.

Restaurada pela Rainer Werner Fassbinder Foundation, a minisérie foi exibida em 2010 no Festival de Berlin e merece ser revisitada nos dias de hoje pelos amantes do cinema e da teledramaturgia, sobretudo aqueles que simpatizam com a Ficção Científica e com o tema Realidade Virtual.

Trailer na versão estendida de “World on a Wire”

Ficção Científica