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"Ad Astra" (2019)
James Gray dirige e co-roteiriza uma Hard Science Fiction de alto nível que faz reverência ao gênero e aos clássicos
Bruno Accioly comment Comentários access_time 7 minutos

Diretor e roteirista de sólidos resultados técnicos, James Gray – de “Little Odessa” (1994), “The Yards” (2000), “We Own the Night” (2007) e “Two Lovers” (2008) – entrega, em “Ad Astra” (2019), uma produção corajosa, árida e cheia de reflexão acerca da jornada, identidade, meta e realização humanas em uma ficção científica de alto nível e com altas aspirações.

“Ad Astra”, cujo título em latin significa “Rumo às Estrelas” faz reverência ao estilo do cineasta soviético Andrei Tarkovsky (1932–1986), de “Solaris” (1972), enquanto distribui farto número de referências a obras e estilos de autores literários da Geração Campbell, como Isaac Asimov, Philip K. Dick, Ray Bradbury, Robert A. Heinlein, Theodore Sturgeon e, particularmente, Arthur C. Clarke.

Antenas Orbitais

As imagens e situações originais e realistas, invocadas pelo diretor e pela equipe de direção de arte – composta por nomes como Kevin Constant (“Passengers“, 2016), David Scott (“Tron“, 2010) – são algumas das mais inspiradas, incomuns e instigantes que podem ser encontradas em filmes do gênero.

O filme conta a história de um dedicado astronauta militar de carreira, vivido por Brad Pitt, totalmente dedicado a exploração espacial em um futuro não muito distante. Sendo ele mesmo filho de um herói da astronáutica (Tommy Lee Jones) – que fora o primeiro homem em Júpiter, em Saturno e que teria perecido no Projeto Lima, orbitando Netuno – o protagonista é surpreendido por notícias da derradeira viagem de seu pai.

Major Roy McBride, vivido por Brad Pitt

O Major Roy McBride (Pitt), além de filho de uma celebridade da exploração espacial e de ter seguido seus passos, é considerado um extraordinário exemplo profissional em seu campo de atuação, tanto por conta de sua aptidão física como seu profundo foco nas metodologias e procedimentos astronáuticos.

Em meio a uma crise de proporções interplanetárias envolvendo o Projeto Lima, à deriva em órbita de Netuno, o Major é reconhecido pela SPACECOM – a corporação que parece monopolizar boa parte das missões espaciais – e pelo US Space Command como a melhor escolha para viajar até a Lua e, de lá, até Marte, para tentar contato com a nave/estação “Lima”.

A nave Cepheus

Junto com Thomas Pruitt, vivido por Donald Sutherland – que, curiosamente fez “Cowboys do Espaço” com Tommy Lee Jones no ano 2000 – o Major McBride vai em vôo comercial a uma Lua cuja estabilidade política é frágil e onde grupos disputam territórios acirradamente e roubam recursos uns dos outros em perseguições e incursões em solo lunar.

As cenas lunares são algumas das mais convincentes e memoráveis da história da ficção científica no cinema e todo o entorno político dá profundidade à compreensão do mundo em que se passa a história.

Perseguições em solo lunar

O universo no qual “Ad Astra” se desenrola parece valorizar em demasia a dedicação a tudo o que é metódico, isento, alheio e flerta com elementos de “Admirável Mundo Novo” e “THX 1138“, sendo um mundo no qual uma espécie de “Psiquiatrismo“… um investimento desmedido na noção de que a psiquiatria automatizada, o controle químico da cognição humana e o julgamento da aptidão por parâmetros psicanalíticos são absolutamente necessários e suficientes.

A viagem à Marte, na nave interplanetária Cepheus, dá o tom de outro aspecto da realidade Hard Science Fiction que o filme imprime e, muito embora os tempos de viagem pareçam trocar meses por dias, banalizando sobremaneira a quantidade de tempo necessariamente envolvida nas viagens interplanetárias, nada fica na frente das fortes impressões narrativas que o autor nos entrega.

É na tentativa de contato com o Projeto Lima que se percebem as fraturas que humanizam a personagem do metódico Major e é nos limites que lhe são impostos a partir dali que é possível identificar a humanidade estrangulada dos personagens que habitam aquela realidade.

Trata-se de uma obra pesada, sem muitos diálogos, profundamente recheada de monólogos internos do personagem que, embora pudessem ser suprimidos, são importantes para não alienar a parcela do público menos afeito a obras mais intimistas.

A Cepheus em Marte

“Ad Astra” trata da questão da solidão de forma muito especial, circunavegando a busca por inteligência extraterrestre fora da terra para contar a história de abandono de um filho que acaba por trilhar os mesmos passos do pai e que acredita não dever ter filhos justamente por conta do que viveu na adolescência quando o pai renuncia à família em troca de descobrir tudo o que pode acerca do resto do Universo.

De forma superficial, assistindo ao filme de James Gray, o espectador pode se sentir assistindo “20,000 Leagues Under the Sea” (1954) e, por isso mesmo, se perceber sentindo emoções semelhantes às que teve ao assistir “The Black Hole” (1979), ambas saudosas produções da Disney.

De Marte à Netuno

“Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.”

Friedrich Nietzsche, “Além do Bem e do Mal”

Em uma avaliação mais profunda, obscura e um tanto descomprometida com o que teria sido a intenção do autor, o filme parece fazer uma referência subjacente à obra de Joseph Conrad, “Coração das Trevas“, adaptado para a TV a 1993 em um filme de mesmo nome com Tim Roth e John Malkovich e, obviamente em uma releitura brilhante em “Apocalypse Now” (1979), de Francis Ford Coppola.

“Apocalypse Now”, de Coppola

A referência fugidia a uma jornada por territórios cada vez menos desvendados, uma expedição pela alma do próprio viajante em direção ao desconhecido, com o objetivo de travar contato com o cerne da maldade humana e da redenção dos próprios pecados, parece ser uma descrição que se assemelha por demais ao enredo de “Ad Astra” para que a ignoremos.

É certamente uma obra cinematográfica incomum, sobretudo em um gênero no qual, normalmente, o excesso de efeitos, a cenografia elaborada demais e profundidade temática de menos acabam por tomar conta.

“Ad Astra”, na modesta opinião deste autor, fica na história do cinema como um dos grandes filmes de ficção científica, junto com “2001” (1968), “Solaris” (1972), “Lunar” (2009), “Gravity” (2013) “Interestelar” (2014), “The Martian” (2015) e com os subestimados “Approaching the Unknown” (2016), “Europa Report” (2013), “Love” (2011), “Mission to Mars” (2000), “Red Planet” (2000), “The Black Hole” (1979) e, por que não citar, a adaptação mais recente de “Solaris” (2002).

Trailer de “Ad Astra”

Serviço

Título Original: “Ad Astra” (2019)
Título em Português: “Ad Astra: Rumo às Estrelas”
Nota no IMDB: 7.0
Estréia: 20 de Setembro de 2019
Onde Assistir: Ainda nos cinemas

Elenco

Brad Pitt, como Roy McBride
Tommy Lee Jones, como H. Clifford McBride
Donald Sutherland, como Thomas Pruitt
Ruth Negga, como Helen Lantos
Donnie Keshawarz, como Capitão Lawrence Tanner
LisaGay Hamilton, como Vogel
Bobby Nish, como Franklin Yoshida
John Finn, como General Brigadeiro Stroud
John Ortiz, como Tenente General Rivas
Sean Blakemore, como Willie Levant

Artigos de Referência