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"Divino Amor" (2019)
O Ano é 2027 e o Carnaval foi substituído pela Festa do Amor Supremo
Bruno Accioly comment Comentários access_time 3 minutos

Dirigido e roteirizado por Gabriel Mascaro, o documentarista que estreou como cineasta de ficção em “Boi Neon” (2015), “Divino Amor” é uma fábula, um “conto de advertência”, que apresenta um futuro distópico teocrático nacionalista fundamentalista.

Assistido por Cristãos mais austeros o filme provavelmente se pareceria menos distópico mas – ao menos a princípio – em um mundo secular, onde andar com uma Bíblia na mão já parece excessivo e onde as igrejas buscam ser mais populares, um evangelismo tão abrangente e dominante soa mais como ameaça que vantagem.

O culto de resgate do Divino Amor

O filme conta a história de Joana e Danilo, vividos por Dira Paes (“Meu Tio Matou um Cara“, 2004) e Julio Machado (“Hoje Eu Quero Voltar Sozinho“, 2014), um casal de classe média, sem filhos, que vive uma vida de devoção e amor.

Em uma sociedade onde a ausência de filhos e acúmulo de bens é sinal de fracasso conjugal, a legislação garante o divórcio à casais mal sucedidos, o que Joana, como tabeliã em um cartório, tenta evitar usando de apoio, conselhos e convites, nem sempre bem vindos, para participar de um culto específico para reparar laços matrimoniais fragilizados.

Dinâmica de Grupo em Cristo

O culto frequentado por Joana e Danilo, chamado de Divino Amor, busca a qualquer custo o reatar dos casais envolvidos, através de medidas extremas que estimulem a concepção de forma que hoje seria considerada sacrílega mas que, diante da premissa do filme, tenta alcançar o ideal sagrado e patriótico de criar famílias, uma vez que famílias não podem existir se não houver rebentos.

Joana é uma personagem interessante, que busca na Burocracia, com a qual cria obstáculos a separações, a salvação da família brasileira – uma família por vez.

A tecnologia a serviço Do Altíssimo

As belas imagens, com iluminação sofisticada, conceitos curiosos e situações pitorescas, valorizam cada momento bizarro cujo absurdo nos soa possível durante o filme, sempre sob a narração monocórdia de uma criança inexplicável que só diz a que veio mais para o fim da experiência.

Com um trabalho de World Building não extremamente elaborado, mas com imagens e conceitos que representam bem o conceito de distopia teocrático nacionalista imaginada por Mascaro, o filme tem dificuldades de empreender ritmo ao mesmo tempo que passa a aridez de uma sociedade que o espectador teme justamente por conta disso.

Para salvar a família brasileira a burocracia era sua esperança

Tenha sido ou não a melhor escolha de andamento, Mascaro acaba conseguindo ilustrar as características, contradições, interesses e hipocrisias de um mundo que sequer está pronto para o que supostamente mais almeja: o retorno de Jesus Cristo.

É um filme difícil, embora relativamente bem avaliado, apresentado no Berlin Film Festival de 2019 e com 15 indicações e 5 prêmios internacionais que por si só valem o tempo do espectador.

Sobretudo por conta de um final crítico, que dá a profundidade que o filme parece carecer desde o início, a obra acaba deixando o espectador com reflexões que o ocupam após a experiência.

“Divino Amor”, 2019 – trailer

Serviço

Título: “Divino Amor” (2019)
Nota no IMDB: 6.3
Estréia: 27 de Junho de 2019

Elenco

Dira Paes, como Joana
Julio Machado, como Danilo
Emílio de Mello, como Pastor do Drive Thru