“Lua Nova”: “Crepúsculo”, Livro 2

Agosto 18, 2008 · Imprima este Artigo

Por Sissi Freire

“Lua Nova”: Livro 2 da saga de “Crepúsculo”

“Que droga,” eu murmurei quando senti o papel cortando meu dedo; puxei o dedo para examinar o estrago. Uma única gota de sangue flui do pequeno corte.
Tudo aconteceu extremamente rápido.
Edward se jogou sobre mim, e deslizamos pela mesa…
Eu cai perto do piano, com os braços estirados para frente, instintivamente, tentando me proteger da queda, e cai direto nos cacos de vidro. Senti a profunda e impiedosa dor, subindo desde o pulso até o meu cotovelo.
Tonta e desorientada, meu olhos foram do brilhante sangue que fluia do meu braço, para os olhos febris de seis vampiros subtamente famintos.

(trecho extraído de Lua Nova)

Que Bella Swan é um imã para o perigo, os leitores de “Crepúsculo” já sabiam. Que Edward é a coisa mais importante na vida dela, também já ficou claro para todos. Ah sim, não podemos esquecer que ela é humana e ele é vampiro. Ponto para Bella que, apaixonada por Edward, mal sabe que seus problemas apenas começaram. Lua Nova (New Moon, Editora Intrínseca) é o segundo livro da saga iniciada por Crepúsculo, escrita por Stephenie Meyer, que conta a estória de Bella e Edward.

Nesse novo volume, ao narrar o desespero de Bella face a acontecimentos além de seu poder decisório, Stephanie nos brinda com um retrato em preto e branco, porém rico em detalhes, sobre dor e agonia. No meio de tanto sofrimento, a adolescente encontra amparo e abrigo na forma do amigo Jacob Black. A amizade dos dois é tão forte quando o amor de Bella e Edward e o que deveria ser um alento para ela logo se transforma em agonia, uma vez que Jacob também tem um segredo que não pode ser revelado.

“Lua Nova” tem um tom mais sombrio que “Crepúsculo”, mas nem por isso se torna menos interessante. Muito pelo contrário, a cada reviravolta da estória torna-se mais difícil abandonar a leitura.

Para aqueles que estão curiosos demais, a autora disponibiliza em seu site o primeiro capítulo de New Moon.

“Os 10 Mais”

Agosto 4, 2008 · Imprima este Artigo

Por Sissi Freire

“Os 10 Mais - 250 Rankings Que Todo Mundo Deveria Conhecer”

Eu aposto que no fundo você sempre desconfiou que o filme com maior bilheteria de todos os tempos foi “E O Vento Levou”, mas nunca se deu ao trabalho de pesquisar e confirmar isso. Muito bem, Luiz André Alzer e Mariana Claudino, autores do sensacional Almanaque dos Anos 80, arregaçaram as mangas e fizeram isso - e muito mais - por você. Juntos eles compilaram informações e lançaram “Os 10 Mais - 250 Rankings Que Todo Mundo Deveria Conhecer” (Editora Agir, 256 páginas), onde nos contam os 10 mais de vários assuntos, tais como esporte, lazer, sexo e ainda nos brinda com listas de pessoas famosas, como Oscar Schmidt que abre seu coração conta as 10 maiores desvantagens de ter 2,05 metros de altura e Bruno Mazzeo que no rastro de seu programa “Cilada” lista as 10 maiores Ciladas que uma pessoa pode se meter. A lista de celebridades que contribuiram com o livro conta ainda com Zeca Pagodinho, Anna Hickman, Eike Batista, Nelson Piquet entre outros, que totalizam 33 celebridades e suas listas de 10 mais.

Os autores contam que a maior dificuldade que tiveram foi o levantamento de dados para a pesquisa, pois muitas vezes as informações que eles necessitavam ou não existiam ou estavam muito bagunçadas. Mas, com persistência e empenho incansáveis, os dois conseguiram produzir um livro indispensável a coleção de qualquer nerd que se preze. Afinal, quem não gostaria de saber quais os 10 jogos de videogame mais divertidos, ou os 10 principais medos dos brasileiros na hora do sexo?

Serviço

Título: Os 10 Mais - 250 Rankings Que Todo Mundo Deveria Conhecer
Autor: Luiz Andre Alzer, Mariana Claudino
Editora: Agir
Preço: R$ 23,90
Número de páginas: 256 páginas
ISBN: 9788522009909
Site Oficial: Visite o site
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“No Olho Da Rua”

Julho 18, 2008 · Imprima este Artigo

Por Lucas Sigaud

Um Outro Lado Da Vida

“Cada galpão tinha oitenta metros de comprimento e era subdividido, por paredes, em dez alojamentos, de mais ou menos oito metros quadrados, todos entulhados de beliches onde dormiam aproximadamente 36 pessoas. Não havia divisórias separando as camas. Os moradores dormiam publicamente, como nas ruas, e também publicamente faziam suas necessidades no único banheiro disponível em cada alojamento. Tudo isso os submetia a uma deprimente promiscuidade.”

O que seria o parágrafo acima? Um relato de um campo de concentração nazista? A descrição de uma senzala que abriga escravos em uma ditadura distante? Ou ainda – um presídio decadente para criminosos? Nada disso, ou, talvez, um pouco de cada. Estamos falando da Fazenda Modelo (localizada na Zona Oeste do Rio de Janeiro), projeto hoje extinto, mas que um dia foi um dos maiores abrigos de mendigos do mundo, através da visão do médico Marcelo Antonio da Cunha, autor do livro “No Olho Da Rua”, que durante três anos foi seu diretor.

O livro é uma coletânea de contos reais vividos pelo “Doutor Marcelo”, como era conhecido, na administração da Fazenda Modelo e, principalmente, no convívio com os moradores da mesma. É uma assustadora visão deste outro lado da vida – este outro mundo tão próximo e tão distante. Os fatos são tão chocantes e contados de forma tão emocionante, que esquecemos as limitações de Marcelo Antonio da Cunha enquanto escritor.

Marcelo, de fato, não é escritor. Seu texto às vezes oscila entre o rebuscado e o coloquial, com desvios freqüentemente desnecessários. No entanto, nota-se claramente o afinco e a dedicação do mesmo em tratar das vidas dos pobres (em todos os sentidos) moradores da Fazenda Modelo.

E é nos relatos sobre os moradores e sobre seu convívio com eles que o livro acerta em cheio. São histórias emocionantes, narradas com perceptível carinho e pesar pelo autor, que invariavelmente nos tocam, sejam elas sobre o artista plástico Cloves, sobre o ator ex-criminoso Ailton, sobre Suzana, prostituta desde os 13 anos, ou até mesmo sobre Higino, o homem-cão.

Contos reais, que abrem nossos olhos para a realidade dolorosa à nossa volta. Por isso, a iniciativa e o trabalho do Doutor Marcelo, bem como seu livro, merecem nossos silenciosos aplausos.

Curiosidade: Marcelo Antonio da Cunha nunca deixou de trabalhar em causas sociais ao longo de sua carreira. Trabalhou na organização Médicos Sem Fronteiras e hoje, 5 anos após deixar a Fazenda Modelo (levou quase quatro escrevendo este livro) coordena um Centro de Atenção Psicossocial para Álcool e Outras Drogas no Rio de Janeiro.

Serviço

Título: “No Olho da Rua”
Autor: Marcelo Antonio da Cunha
Editora: Nova Fronteira
Preço: R$ 44,90
Número de páginas: 288 páginas
ISBN: 978.85.209.2079-4
Site: “No Olho da Rua”
Amostra: Trecho de “No Olho da Rua”

“Todo DJ já Sambou”

Julho 14, 2008 · Imprima este Artigo

Por Bruno Accioly

DJs Brasileiros, hoje, conquistam o mundo com seu talento, mas nem sempre foi assim. O libro “Todo DJ já Sambou” conta esta história enquanto navega pela cultura clubber, pelos vários sabores da dance music.

Trata-se de uma nova edição ampliada da obra original que, depois de esgotado por um ano, volta às prateleiras.

O livro descreve a trajetória de personagens importantes da história dos DJs no Brasil, como Osvaldo Pereira que, com sua “Orquestra Invisível”, tocava Long Plays de Glenn Miller na década de 50.

A obra vai, assim, descrevendo a silhueta de um passado que daria forma para o que está sendo feito na música hoje, com o rigor documental de Claudia Assef, uma amante da “música de pista”, Jornalista, ex-Editora da Volume01 (Ed.Abril), ex-apresentadora do Clubtronic Especial da 97.7FM e atual diretora executiva do portal Vírgula, da Jovem Pan.

Serviço

Título: “Todo DJ já Sambou”
Autor: Claudia Assef
Editora: Conrad
Preço: R$ 37,00
Número de páginas: 264 páginas
ISBN: 978-85-7616-306-0

“As Belas Coisas que é do Céu Contê-las”

Julho 3, 2008 · Imprima este Artigo

Por Lucas Sigaud

O livro “As Belas Coisas que é do Céu Contê-las” de Dinaw Mengestu (lançado originalmente no início do ano passado com o título “The Beautiful Things That Heaven Bears”), lançado agora pela Nova Fronteira no Brasil com tradução de Maria Helena Rouanet, é, certamente, uma grata surpresa – em seu primeiro livro, Mengestu consegue contar uma tocante história.

O livro é narrado em primeira pessoa por Sepha Stephanos, um imigrante etíope residente em uma região pobre, em vias de revitalização, de Washington, capital norte-americana, e onde possui uma pequena mercearia. Sepha emigrou da Etiópia para fugir da guerra civil (uma das muitas que assola a África, e que vira tema de um jogo tragicômico particular de Sepha com seus dois melhores – e únicos – amigos: Joseph, do Congo, e Kenneth, do Quênia), e, após anos fora de casa, não consegue mais definir a onde ele pertence: não faz mais parte da Etiópia, mas nunca chegou a fazer parte dos Estados Unidos, pintando um retrato de isolamento, solidão e, principalmente, falta de adequação.

E é nesse limbo que Sepha nos conta, alternando relatos do presente e do passado (um dos trunfos da narrativa envolvente de Mengestu), seja longínquo ou recente, sobre sua vida, sobre os muitos fatores que o levaram até ali e sobre suas próprias reflexões sobre o homem. E, em meio a isto tudo, seu relacionamento com sua rica vizinha Judith, branca, e sua filha mulata Naomi, uma criança que encanta e toca profundamente o coração e a vida de Sepha.

O livro não é um segundo “O Caçador de Pipas”, como muitos esperavam à época de seu lançamento (os elogios – merecidos, por sinal – de Khaled Hosseini não ajudam a evitar essa impressão); é muito mais resignado, e talvez por isso, mais realista. E, nos detalhes, Mengestu e Sepha Stephanos conquistam o leitor – seja nas descrições muito pictóricas, seja nas cartas do tio de Sepha aos presidentes dos Estados Unidos, seja nas leituras diárias de “Os Irmãos Karamazov” com Naomi, seja ao cantar “Children Of The Revolution” (música da banda T. Rex) com Joseph e Kenneth no bar.

“As Belas Coisas que é do Céu Contê-las” conta-nos sobre alguém perdido, de muitas formas, entre dois mundos, e tentando traçar uma existência no espaço que resta. É triste, é realista, é tocante, e é lindo. Vale a pena.

Curiosidade: a tradução do título, à primeira vista, pode causar estranheza. Mas há um motivo: na verdade, são traduções de um verso de um poema de Dante Alighieri para os dois idimoas que procuram manter as rimas e as construções do original e, por isso, pode soar não-usual a escolha da construção “As Belas Coisas que é do Céu Contê-las” para algo relativamente mais simples do inglês (“The Beautiful Things That Heaven Bears”).

Serviço:
Título: As Belas Coisas que é do Céu Contê-las
Autor: DINAW MENGESTU
Editora: Nova Fronteira
Preço: R$ 22,90
Número de páginas: 288 páginas
ISBN: 9788520921111
Site: Hotsite da Obra

“Coisas Frágeis”, de Neil Gaiman

Junho 27, 2008 · Imprima este Artigo

Por Eduardo Santos

Neil Gaiman é referência obrigatória para quem curte quadrinhos. Seu maior sucesso, Sandman, foi lançado em 1989 e ainda é uma das mais comentadas graphic novels. Pouca gente sabe é da lenda de que Sandman foi lançado inicialmente para “preparar o terreno” para Orquídea Negra, uma belíssima criação lançada em 1990, onde se pode curtir a arte de Dave McKean (responsável pelas capas de Sandman) em todas as páginas.

Mas Gaiman tem outros talentos para além da banda desenhada. Seu “Stardust” (1998) virou filme em 2007. O autor também assina, junto com Roger Avary, o roteiro de Beowulf além de outras produções menos conhecidas.

Mas há os livros… Um monte deles! A Conrad tem lançado no Brasil a obra de Gaiman em edições impecáveis. Confira “Lugar Nenhum” (1997), “Deuses Americanos” (2001) e “Filhos de Anansi” (2005).

O mais novo lançamento é “Coisas Frágeis” (2006) que é lançado por ocasião da participação do autor na edição 2008 da Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP). É a terceira vez que Gaiman vem ao Brasil e desta vez participa da mesa “A mão e a luva” no evento literário mais badalado do país.

“Coisas Frágeis” é um livro de contos em que o autor passeia por climas tão diversos quanto Matrix, Sherlock Holmes ou Nárnia. A “mistura” inclui puberdade, punk rock e ficção científica em “Como Conversar com Garotas nas Festas”, combina Conan Doyle com H. P. Lovecraft em “Um Estudo em Esmeralda” e visita a Matrix em “Golias” (que é inspirado no roteiro original do primeiro filme).

Serviço:
Título: Coisas Frágeis
Autor: Neil Gaiman
Editora: Conrad
Tradutor: Michele de Aguiar Vartuli
Preço: R$ 38,00
Número de páginas: 204 páginas
ISBN: 9788576163053
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Jogo da Memória: Souvenir iraquiano

Maio 5, 2008 · Imprima este Artigo

Por Eduardo Santos

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Comentários sobre o romance de espionagem Souvenir iraquiano de Robinson dos Santos

A memória coa o passado formando aquilo que nem sempre escolhemos ter sido, vivido e acontecido. E esta entidade assim informe vai captando interferências de luzes, sons, sabores, texturas e cheiros que assaltam nossa máquina orgânica no presente empírico. É possível estabelecer até vínculos causais entre fenômeno percebido (aquele que conseguiu perfurar camadas protetoras construídas quem sabe com que moral, trauma ou desejo) ou fato posto e heranças genético-culturais para, quem sabe, nos dizer que aquela população não lê romances de cavalaria por não haver raízes históricas e assim compilar centenas de raciocínios que são vários coerentes, poucos belos, raros brilhantes e muitos óbvios. Pura tautologia. Mas é fato que para ver o sol é preciso olhos d’alguma espécie qualquer. E ainda assim, há olhos para os quais sol é Deus. E, claro, há quem sinta muito calor mas não consiga dobrar o pescoço.

É, então, sempre preciso fletir pescoços, construir cenários objetivos, elaborar mesmo que intuitivamente conceitos para ouvir a dissonância daquele quarteto de cordas. Querer não é necessário e muito menos suficiente do que poder para observar a experiência empírica. Há um desaguar, um epílogo de toda a história que já aconteceu em todas as dimensões de passados. Há esta “pré-acontecência” que ultima em me reconstruir a flor quando olho para sua pétala e me comove a curva generosa e sensual que faz para me mostrar seus pistilos amarelos.

E mesmo passado posto e disposto há ainda quem espirre pelo pólen aspirado. Mas o próprio pensar em um futuro é fenômeno do espirro posto; da conseqüência de tudo que cá pude juntar. Juntamos lembranças para construir no presente uma perspectiva qualquer de futuro.

Sabemos e esforçamo-nos cotidianamente em esquecer que não dominamos o jogo. Que os souvenires que com muito esforço recolhemos, classificamos e guardamos não são o bastante para quem sabe mesmo, sequer influir, no futuro que desejamos ter. E quando a posteriori contemplamos o futuro já passado, quando nos orgulhamos por ter feito vínculo entre conseqüência e causa, estamos é professando fé para quem sabe encontrar motivo e recolher mais uma lembrança a fazer de futuro projetado.

Viajamos para recolher lembranças. Não compro souvenires de plástico injetado naquelas barracas populares que trazem d’algum lugar remoto da Ásia um simulacro da torre. Não compro porque as acho um horror. Não compro porque a tinta branca que escorreu pelos olhos do boneco e lhe desce pelas pálpebras me lembra, antes, do pouco dinheiro que obteve algum operário faminto que da consubstanciação metafísica que uniu artista e singular momento transformando objetivo e subjetivo em algo indefinível que chamo arte.

Mas recolho sim minhas lembranças. E trago na bagagem, como concessão ao existir, aquela caneca para uma tia que ficará autenticamente emocionada. Já trouxe mesmo canecas para mim. E é fácil trazê-las! Canecas são ótimas para se beber café ou leite. As gentes, afinal, recolhem não os souvenires que querem mas, principalmente, os que podem. E é assim “uma lembrancinha” que dá título ao romance de Robinson dos Santos. Um souvenir de mais de um milênio.

Li “Souvenir iraquiano” em quatro dias contados. É daqueles livros que não se consegue largar uma vez iniciada a leitura. Se você sai para a praia e esquece de levá-lo, não precisa nem terminar sua leitura: o livro não funcionou. Lembro que nem o abri nas areias do Leme. Era, afinal, uma praia com família e havia boa prosa para embalar o olhar atento às crianças a brincar na espuma de ondas. Mas não pude deixá-lo em casa e mesmo a prosa fácil de sábado acabou indo de alguma maneira parar em comentários sobre o texto. E a primeira observação é de que o livro ‘funciona’ de acordo com sua proposta inicial. Praia encerrada, banho tomado retomei apressado o livro.

O romance de espionagem com texto ágil, cortes rápidos e precisos não faz parte de minha dieta cotidiana. Falta-me, portanto, referencial para análises comparativas ou sutilezas de influências entre outras. Mas é exatamente a causa dessa falta de bagagem que torna interessante a visita ao texto do brasileiro. Porque a memória lembra é de traduções brancas feitas com textos lisos como matéria prima. Lembra também (ainda que mais apagada ainda) dos que escaparam da pasteurização habitual que domina este segmento do mercado editorial para apresentar uma prosa que desencoraja o término da leitura. As academias têm lá suas motivações para tratarem o mercado como um menino tolo e inexperiente. Mas o texto em questão não é uma tradução e só isto já o coloca em uma divisão especial.

Até mesmo pelo tom da narrativa o leitor é convidado o tempo todo a estabelecer a contrapartida de um plano visual para o texto. Esse plano visual se desenvolve intuitivamente como um filme, inevitável nestes tempos de cinema-experiência nos quais uma respirada mais forte do espectador vale mais do que cem linhas de diálogo. E quando a gente “vê” Souvenir saindo do texto para virar referência visual ainda que imaginária, dificilmente o discurso seria de um diretor brasileiro. Assim como quase não publicamos, os brasileiros não filmamos este tipo de ficção. Mas o apelo cinematográfico de “Souvenir iraquiano” é tão forte que fiquei imaginando qual brasileiro teria mãos talentosas para dirigir uma adaptação para o cinema. Lembrei de Beto Brant que fez os ótimos “Os matadores” (1997), “Ação entre amigos”.(1998) e, mais conhecido, “O invasor” (2002). Beto tem outros dois filmes listados no IMDB que ainda não vi, “Crime delicado” (2005) e “Cão sem dono” (2007). Vou dar um confere.

Nosso mercado editorial não produz localmente o tipo de literatura que temos em “Souvenir iraquiano”. É um texto que exige considerável esforço de planejamento e pesquisa. E é uma arquitetura de texto que demanda precisão em seus tempos e cortes para estabelecer um ritmo que seja realmente fluente para o leitor. O livro de Robinson consegue tudo isso e, como brinde, oferece um texto que cria uma linha de tensão, de desconforto que acompanha a narrativa desde o início. Robinson utiliza “frases B” para compor sua prosa, ou seja, o discurso não “escorre” do jeito como se espera. Não é texto óbvio, apesar da vivência no jornalismo do autor dar o tempo todo o necessário grau agilidade que um livro de ação como este precisa.

Me é inteiramente compreensível que o mercado editorial promova cá os mesmos grandes nomes de novelas de ação que têm aceitação em outros lugares do planeta. A demografia para o produto já está, afinal, traçada. E com ela as peças de marketing, a cor das capas, os pontos ideais de venda e todos os atributos não literários que fazem essa indústria ser chamada mercado editorial. É curioso como em um largo segmento deste mercado existam poucos autores como Robinson em nosso país.

Não tenho dúvidas das relevantes dificuldades para urdir tramas, montar equipes de pesquisa histórica e cultural, ultimar enfim todas as ações necessárias para a criação de textos de ação ágeis como este. Mas parece que o que há de menos em nosso país seja a competência de marketing para criar “produtos editoriais” em um combalido mercado onde amplo percentual do público alvo quer mesmo é comentar ter lido o último Tom Clancy.

Mas este mercado é amplo e global. Se você gosta do gênero e não leu “Souvenir iraquiano” não sabe o que está perdendo. Se ler, vai querer como eu reler para memorizar os vários easter eggs distribuídos pelo texto que contam desde características construtivas de um tanque até hábitos culturais de fronteira. Não importa exatamente se aconteceu assim. Robinson nos faz crer que poderia ter acontecido assim. E usa para isso, além de um talento específico, muita informação contextual.

A trama se desenvolve como uma inevitável conseqüência do prólogo que, apesar de ocorrer bem antes do enredo principal, apresenta à força bruta e em reduzido número de páginas dois dos principais personagens do romance. Ficamos sabendo que aqueles acontecimentos ficarão marcados na memória dos personagens porque não saem mais de nossa mente. A lembrança é a matéria prima com que todo o texto trabalha. Souvenir é construído em torno de uma “economia de memórias”. Memória é a quimera que persegue o pai que deixa a filha doente, que consome o ex-engenheiro bem-sucedido, que move o herói de uma outra guerra. É a lembrança que faz o agente da CIA se mover e a bela traficante de relíquias matar. E é também com uma recordação que o livro termina: com o retorno de algo que já havia sido esquecido pelo personagem e pelo leitor.

O livro: Souvenir iraquiano

Onde comprar: Livraria do Crime

“O Presidente Negro”

Maio 2, 2008 · Imprima este Artigo

Por Bruno Accioly

Foi Monteiro Lobato que disse que “Um país se faz com homens e livros” e que, cético, procurava presumir de menos e questionar o máximo possível.

Nascido em 1882, Lobato é a prova de que ceticismo não é sinônimo de falta de imaginação.

Pouco depois de escrever o livro, Lobato foi para Nova Iorque e acabou se tornando adido comercial da representação diplomática brasileira o que indica que havia interesse, de sua parte, em aportar além-mar com sua literatura.

Antes disso, contudo, tendo criado todo um universo de fantasia - o “Sítio do Pica-Pau Amarelo” - que iniciou na leitura toda uma geração de futuros nerds. Monteiro Lobato, contudo, não escreveu apenas livros de fantasia, tendo com “O Presidente Negro” - inicialmente batizado de “O Choque” - investido nada menos do que em Ficção Científica.

Um romance inovador e ousado, “O Presidente Negro” foi escrito em 1926 e publicado em folhetins no jornal carioca “A Manhã”, sendo ambientado no Século XXIII, em 2228, nos EUA.

Rico em interpretações, “O Presidente Negro” lida com temas densos com o jeito competente de Lobato de contar histórias, passando por segregação, degradação cultural, feminismo e paliativos tecnológicas para o abismo existencial que se coloca entre classes sociais, etnias, culturas e entre cada um de nós.

Quase profético, o livro conta a história da eleição do octagésimo oitavo presidente americano, à qual são candidatos o negro Jim Roy, a feminista Evelyn Astor e o então presidente Kerlog, que busca a reeleição - uma realidade bastante familiar nos dias de hoje mas bastante inverossímil a época em que a obra foi escrita.

Ao falar de comunicação neste futuro imaginário, Lobato descreve detalhadamente como algumas pessoas trabalhariam em casa, enviando via Rádio o produto de seu trabalho, mediante um elaborado mecanismo que nem difere tanto do que, hoje, é a combinação Computador/Internet.

Toda a estória vem contada no livro como meta-estória, uma vez que ela nos chega pelo inepto Airton, personagem que se aproxima da filha de um cientista que, este sim, descobre um meio de desvendar o futuro com auxílio de uma máquina chamada “Porviroscópio”.

É um erro clássico e colossal atribuir aos acontecimentos do livro qualquer traço de racismo por parte do autor, que assim como George Orwell e Aldous Huxley, navega sem pudor pelo campo do alarde ao totalitarismo como crítica e não como endosso.

Monteiro Lobato, com a habilidade que conhecemos, ataca o problema da degradação cultural de uma minoria em cerca de 200 páginas, não só construindo uma historieta profética, mas uma alegoria que facilmente pode ser entendida como um alerta para o fato de que a globalização do pensamento, a busca de um ser humano normótico e o uso indiscriminado da tecnologia como solução dos problemas, podem ser ingredientes cuja conseqüência aponta para um mundo no qual a maior parte de nós não deseja ter de viver.

Adquira aqui: “O Presidente Negro”[bb]

Ou abaixo:

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FC do B - Ficção Científica Brasileira

Abril 7, 2008 · Imprima este Artigo

Por Bruno Accioly

Apesar da quantidade de aficcionados por Ficção Científica no Brasil, é sabido que há pouquíssimos autores brasileiros, conhecidos, que se encarreguem de se dedicar ao gênero.

A Ficção Científica brasileira continua em sua busca por uma identidade, desde o livro “Verde… Verde…”, de 1989, pela editora Sérgio Fonseca de Castro - e quem se lembrar deste livro ganha um doce!

Há quem tente, contudo, re-acender a chama da Ficção Científica tupiniquim de vez em quando, o que é importante para que, um dia, tenhamos mais nomes como Jorge Luiz Calife[bb], colunista jornalístico e escritor do gênero que chegou até a inspirar Arthur C. Clarke a escrever a continuação de “2001: Uma Odisséia no Espaço”.

Roberto Causo, escritor e pesquisador de Ficção Científica, publicou em 2003 o livro “Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875 – 1950″[bb], que sugere traços do gênero na literatura Brasileira já desde o Século XIX, mas foi mesmo por volta de 1950 que as coisas começaram a acontecer no país.

Nas década de 50, o editor Gumercindo Rocha Dorea ajudou a talhar uma geração de escritores dos quais só é considerado digno de nota André Carneiro, ele mesmo tendo negado ser um escritor de gênero e se entitulado poeta.

A “Geração GRD”, como se convencionou chamar aquela dos escritores que publicaram seus trabalhos de Ficção Científica até fins da década de 70, é dada como terminada quando do lançamento da Isaac Asimov Magazine Brasil, que deu espaço a novos nomes sobretudo através do Concurso Jerônimo Monteiro.

Fazem parte desta “segunda onda” Carlos Orsi Martinho, o próprio Jorge Luiz Calife - este considerado o melhor escritor brasileiro de Ficção Científica - e Henrique Flory, que é muito elogiado pela crítica e adepto do sub-gênero denominado Hard Science Fiction (que é mais realista e menos especulativa).

Com um público um tanto restrito e sem tantos autores de romances como de contos, alguns autores estão tentando abordagens mais populares, como é o caso do jogo “Taikodom”, que está sendo criado a partir dos contos de Cid Fernandez, José dos Santos Fernandes, Ivan Carlos Regina, Bráulio Tavares, Ivanir Calado, Gerson Lodi-Ribeiro.

Ao observarmos o panorama da Ficção Científica mais atentamente no Brasil, acabamos notando que o problema não é tanto a ausência de autores ou público, mas uma desmobilização da media em levá-los a sério, sobretudo numa realidade onde a Ficção Científica está diretamente ligada a filmes e séries de TV cujo orçamento ultrapassa em muito a realidade nacional de produção cultural.

Muito tem sido discutido acerca dos motivos da Ficção Científica ser tão ausente de autores nacionais e do interesse do público por produções brasileiras na área ser tão evidente.

Felizmente há ainda certa resistência, como se pode ver através do Clube de Leitores de Ficção Científica, do Grupo de Discussão ArqSciFi e do lançamento do livro de contos “FC do B” - Ficção Científica Brasileira, Panorama 2006/2007 - que pode ser adquirido pela Editora Corifeu.

A obra é fruto de um concurso literário ocorrido entre Outubro de 2006 e Julho de 2007, tendo recebido quase 200 contos de todo brasil e de brasileiros no exterior.

Deste montante, 27 contos foram selecionados para ilustrar a visão do autor brasileiro sobre questões que envolvam ciência, tecnologia e sociedade sob um viés literário-ficcional.

Apesar de toda Ficção Científica perpassar por questões recorrentes como viagens interplanetárias, colônias fora da Terra, viagens no tempo, distopias sociais, realidade virtual, inteligência artificial e tantos outros conceitos que bem conhecemos, o fato de serem brasileiros por trás da obra garante um jeito todo nosso de contar histórias, por vezes com bom humor, por vezes com aquele fatalismo cínico do brasileiro cansado e quase sempre com a malandragem que não se acha em nenhuma outra parte do planeta.

Vale adquirir para ver o mundo por uma outra lente que não aquela que nos mandam de lá de fora!

Título: FC do B - Ficção Científica Brasileira - Panorama
2006/2007

Autor: FC do B

Páginas: 228

Preço: R$ 32,00
Disponibilidade em estoque: Total

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