“Batman – O Cavaleiro das Trevas”

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Certa vez houve um quadrinho muito especial, chamado “O Cavaleiro das Trevas”, e os puristas podem ter torcido o nariz para o nome dado a este novo filme, do personagem que alguns já amavam nos quadrinhos e que muitos até estão estranhando por conhecerem apenas das telas de TV, da série da década de 60.

Quando das filmagens em Chicago, em abril de 2007, a produção teve de disfarçar o filme sob o título “Rory’s First Kiss”, usando de material de marketing forjado e tudo mais que se pode imaginar. Pudera! O filme precisava mesmo de toda a discrição que pudesse ser obtida!

“Batman – O Cavaleiro das Trevas”, embora não seja tão grandiloqüênte quanto o seu homônimo nos quadrinhos, é uma obra extremamente bem fechada, consistente, bem escrita e que faz bonito nas telas ao falar de Moral, Ética e Natureza Humana sem medo de quebrar alguns ovos.

O Coringa não é mais um vilão apenas engraçado e louco, mas um arauto do caos com visão política relevante e bem definida, cuja existência se deveu a impossibilidade do mal se manifestar sem ser espatifado pelo Homem-Morcego, quase onipresente na problemática cidade de Gothan.

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Harvey Dent não é mais apenas frágil, mas um idealista frustrado que, como todos os idealistas frustrados e pouco insistentes, se torna um cínico contra tudo o que ele mesmo sempre pregou e representou. É a manifestação do quanto, por vezes, a perda pessoal fala mais alto que os princípios e a ideologia.

A máxima de que “Morre-se herói ou vive-se o bastante para ver-se transformar em vilão” é levadas às últimas conseqüências e não sem aviso.

Toda sorte de questão moral relacionada com o nosso tempo vem a tona através da alegoria que é Batman, a polícia daquele pequeno mundo, que aterroriza tanto os inimigos daquela cidade que, em dado momento, surge um inimigo a altura, causando tanto terror quanto ele mesmo.

E mesmo torcendo por Batman, nos questionamos acerca de seu direito em combater o crime, para além das leis, reacionário em essência e çom métodos que vão de encontro às leis da cidade.

Christopher Nolan nos leva por uma viagem pelo pensamento grego e pela criação da Filosofia do Direito, não perdendo de vista a importância dos personagens mas não se furtando a colocá-los em cheque o tempo todo com questões que tem mais de 2500 anos de idade.

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Christian Bale está ainda mais assustador e a caminho de um futuro cada vez mais soturno como Bruce Wayne; Aaron Eckhart vive Harvey Dent, um herói possível, aquele que tem seus deslizes e limites, mas que é tudo o que Wayne gostaria que fosse suficiente; Maggie Gyllenhaal é uma escolha mais razoável e que dá mais credibilidade a Rachel Dawes; Gary Oldman empresta uma dignidade sem fim no papel de um íntegro e incansável comissário Gordon; Morgan Freeman e Michael Caine, vivendo Lucius Fox e Alfred fazem as vezes da consciência do “patrão Bruce”, fazendo algumas das colocações mais austeras e perversas, cada qual a seu tempo. Trata-se de um elenco invejável para qualquer adaptação de quadrinhos!

E há ainda Heath Ledger, o Coringa, conseguiu encarnar o personagem com competência maior que todos os seus notórios predecessores e levá-lo a um outro nível, em uma memorável performance digna de um Oscar póstumo – somente um outro Coringa, menos conhecido, visto em “Batman Dead End” (a melhor adaptação dos personagens até “Batman Begins”, em minha opinião), chega perto do desempenho de Ledger .

[Assistir "Batman Dead End"]

Cada vez mais vemos os quadrinhos como manancial de boas histórias, além claro, de grande diversão, agora que a tecnologia assim permite e que não só diretores e atores, mas o público começa a levar a sério tudo o que antigamente era nerd.

É importante entender que os super-heróis são uma classe de personagens cujas histórias vêm sendo contadas há décadas e que já foram mais que testados por seus leitores. Repaginar estes personagens e suas histórias, para o cinema, é algo tentado há mais de dez anos e que finalmente começa a ser feito de forma competente. Trata-se de um campo fértil para se contar histórias, uma vez que poucos personagens da literatura foram mais consistente e insistentemente definidos e revisitados que os super-heróis.

Vale ver quem andou falando a respeito de “Batman – O Cavaleiro das Trevas” para entender, dos grandes ou dos nem tão grandes, em quanto este filme foi importante na histórias das adaptações de histórias em quadrinhos – tenha o espectador gostado ou não.

Se você ainda não viu “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, sugiro que corra até o cinema, pois o ingresso está custando uma bagatela, tendo em vista os 152 minutos de filme!

E, como diziam os cartazes, “Bem vindo a um mundo sem regras!”… Bem vindo ao nosso mundo!

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Bruno Accioly é diretor da dotweb.com.br, editor do OutraCoisa.com.br, concebeu a iniciativa aoLimiar.com.br e é co-fundador do SteamPunk.com.br

4 Respostas to ““Batman – O Cavaleiro das Trevas””

  1. [...] termina o do outro? O que é o outro se não o palhaço de todos nós? Corpo docente e discente da indisciplina global, que se manifesta nos…ahm….olha aí…nos dilemas de barcos que passeiam pela bahia [...]

  2. [...] hype por trás de “Batman: The Dark Knight” (OutraCoisa) ainda não acabou. Como se não bastasse a morte prematura de Heath Ledger, intérprete do [...]

  3. Bruno Cruz says:

    O filme é pertubardor e sem dúvida foi a melhor adaptação do batman para as telas. O nome, porém, é bastante inapropriado. Faz menção a uma obra da qual o filme pouco ou nada se relaciona e que é um icone dos quadrinhos. Frank Miller, me perdoem os fãs, é de extrema direita. Nem por um segundo coloca em questão os métodos do Batman. Na obra de Miller, o Coringa é encarnação do mal e os que defendem a culpa do batman são ridicularizados. O filme, por outro lado, faz referência e analogia a obra do Allan Moore: Piada Mortal. Terai sido um titulo menos infeliz. Na obra de Moore, o plano do Coringa é mostrar que qualquer um pode se tornar lunatico e que ele e o batman são iguais. O alvo do Coringa lá é o gordon e o palhaço do crime não é bem sucedido. O filme é melhor nesse sentido. O Coringa venceu no fim. Sim, qualquer um, mesmo os melhores, podem se tornar lunaticos quando tirados de sua redoma de defesa.

  4. Cara, não tinha pensado por esse lado do pensamento grego…

    muito bem!!!

    abraço

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